A nova temporada internacional começa, mais uma vez, a ganhar corpo em solo português. A
Figueira Champions Classic regressa este sábado, 14 de fevereiro, devolvendo à Figueira da Foz o protagonismo no calendário europeu, e poucos dias depois a
Volta ao Algarve volta a colocar o sul do país no centro do mapa do ciclismo mundial.
A 52ª edição da Algarvia está agendada entre 18 e 22 de fevereiro e promete reunir um pelotão de luxo, numa combinação de juventude, experiência e ambição que antecipa uma semana de elevada intensidade competitiva.
Nos últimos anos, Portugal consolidou-se como destino estratégico para o arranque competitivo de muitos dos principais nomes do pelotão internacional. O enquadramento geográfico, a diversidade dos percursos e a previsibilidade climatérica nesta fase do ano transformaram as provas portuguesas num laboratório ideal para testar forma, afinar ritmos e estabelecer as primeiras hierarquias internas nas equipas. Em 2026, esse estatuto mantém-se intacto.
As estradas nacionais oferecem um equilíbrio raro. Há finais explosivos em colinas curtas, etapas propícias a sprinters, dias marcados pelo vento que podem originar abanicos e contrarrelógios decisivos para a classificação geral. Para quem ambiciona as Grandes Voltas ou sonha com protagonismo nas Clássicas da primavera, competir em Portugal significa enfrentar um leque completo de desafios técnicos e tácticos logo nas primeiras semanas da época.
Por cá já brilharam nomes que marcaram uma era.
Tadej Pogačar utilizou estas estradas como plataforma para temporadas memoráveis. Alejandro Valverde encontrou no Algarve terreno fértil para exibir a sua explosividade característica. Chris Froome também afinou a máquina competitiva antes de campanhas vitoriosas nas Grandes Voltas. O padrão repete-se, Portugal não é apenas palco, é ponto de partida.
Em 2026, o elenco volta a ser impressionante. Entre regressos aguardados, estreias promissoras e mudanças de camisola que introduzem novas dinâmicas internas, vários protagonistas chegam com objectivos claros. Mais do que lutar por vitórias de etapa, muitos procuram sinais concretos de evolução física e solidez colectiva.
Florian Lipowitz (Red Bull - BORA - Hansgrohe)
Florian Lipowitz apresenta-se como um dos candidatos naturais à classificação geral. O alemão consolidou a sua evolução nas provas de uma semana e chega a Portugal com estatuto reforçado depois de uma temporada consistente ao mais alto nível. A sua capacidade em subida, aliada a uma progressiva melhoria no contrarrelógio, encaixa no perfil tradicionalmente equilibrado da Volta ao Algarve.
Num percurso que costuma incluir um contrarrelógio individual e chegadas em alto decisivas, Lipowitz poderá jogar em duas frentes, resistir nas etapas mais explosivas e capitalizar na regularidade. Para a Red Bull - BORA - Hansgrohe, esta corrida poderá também clarificar a hierarquia interna antes das grandes decisões do calendário internacional.
Juan Ayuso (Lidl-Trek)
Lipowitz esteve em grande evidencia na Volta a França de 2025
Juan Ayuso (Lidl-Trek)
Juan Ayuso inicia um novo ciclo na carreira, agora integrado na Lidl-Trek e com responsabilidades acrescidas. Considerado há vários anos como uma das maiores promessas do ciclismo espanhol, entra numa fase determinante da sua afirmação enquanto líder absoluto em provas por etapas.
O Algarve surge como primeiro grande ensaio competitivo. Mais do que o resultado final, interessará perceber a sua consistência ao longo dos cinco dias, a resposta em cenário de vento lateral e a capacidade de gerir equipas rivais experientes. Num pelotão com nomes consagrados, Ayuso terá oportunidade de medir a sua evolução em contexto real.
Juan Ayuso terá os holofotes virados para si em 2026 com as cores da Lidl-Trek
Richard Carapaz (EF Education – EasyPost)
Richard Carapaz regressa às estradas portuguesas com a experiência de quem já conquistou uma Grande Volta e um título olímpico. O equatoriano mantém intacto o seu perfil ofensivo, raramente se esconde e prefere endurecer a corrida a esperar pelo momento ideal.
As subidas algarvias poderão servir de primeiro teste ao seu nível competitivo antes dos grandes objectivos da temporada. Se estiver próximo da melhor condição, Carapaz tenderá a assumir riscos, procurando diferenças em terreno selectivo. A sua presença acrescenta imprevisibilidade à luta pela classificação geral.
Richars Carapaz terminou no pódio da Volta a Itália 2025
Julian Alaphilippe (Tudor Pro Cycling Team)
Julian Alaphilippe regressa ao Algarve determinado em reencontrar o fulgor dos seus melhores anos. O francês, conhecido pela sua explosividade em finais técnicos e pela capacidade de atacar em terreno ondulado, procura sinais de vitalidade competitiva antes de apontar às grandes Clássicas.
Num contexto onde cada detalhe conta, Alaphilippe poderá explorar etapas com perfil sinuoso ou finais em colina curta. Para a Tudor Pro Cycling Team, a presença do francês é também uma afirmação de ambição internacional. Um triunfo em Portugal teria peso simbólico e mediático.
Julian Alaphillipe mudou de equipa o ano passado e aspira a uma temporada fulgurosa
Paul Seixas (Decathlon CMA CGM Team)
Paul Seixas representa a nova vaga francesa. Jovem, ambicioso e com resultados consistentes nas categorias de formação, encara a Volta ao Algarve como primeiro grande teste entre a elite internacional.
Portugal poderá ser o cenário ideal para medir o seu desenvolvimento competitivo. Enfrentar líderes consagrados, gerir pressão mediática e adaptar-se ao ritmo elevado do pelotão WorldTour constituem etapas fundamentais na sua progressão. Mesmo que não lute pela geral, cada indicador de consistência será observado com atenção.
O Luso descendente Paul Seixas será um dos nomes a ter na equação nas provas portuguesas
Jasper Philipsen (Alpecin-Premier Tech)
No capítulo dos sprinters, Jasper Philipsen promete animar os finais rápidos. Já vencedor em grandes palcos internacionais, o belga sabe que o Algarve tradicionalmente oferece oportunidades claras para homens rápidos.
A Alpecin-Premier Tech deverá organizar o seu comboio com precisão milimétrica nas etapas planas. Em corridas onde cada vitória conta para a moral colectiva, controlar o ritmo do pelotão e posicionar Philipsen nos últimos 200 metros será determinante. A luta pela camisola de líder poderá passar também pelas bonificações intermédias.
Jasper Phillipsen de amarelo na Volta a França
Oscar Onley (INEOS Grenadiers)
Oscar Onley surge como mais um jovem em clara ascensão. Com prestações sólidas em Grandes Voltas, o escocês ambiciona confirmar a evolução num contexto competitivo exigente.
A INEOS Grenadiers tem tradição em utilizar provas de início de época para testar lideranças alternativas. Onley poderá beneficiar dessa abordagem, assumindo responsabilidades e medindo-se frente a adversários experientes. Num percurso com contrarrelógio e etapas selectivas, terá oportunidade de demonstrar maturidade táctica e resistência em dias consecutivos de alta intensidade.
Oscar Onley é uma das caras da equipa britânica para atacar 2026
Entre a Figueira da Foz e o Algarve, Portugal volta assim a assumir um papel central no arranque da temporada internacional. Mais do que vitórias imediatas, estas corridas oferecem as primeiras pistas sobre estados de forma, estratégias colectivas e ambições individuais. Cada ataque, cada posicionamento em zona de vento, cada segundo ganho no contrarrelógio poderá revelar tendências para os meses seguintes.
O que se decidir nas estradas portuguesas não determinará o desfecho das Grandes Voltas ou das Clássicas, mas ajudará a desenhar o mapa competitivo de 2026. E, como tantas vezes aconteceu no passado, o primeiro grande sinal da época poderá muito bem surgir sob o sol algarvio.