Beatriz Guerra, Inês Fonseca, Gonçalo Costa e Daniel Moreira - as promessas do ciclismo português para manter debaixo de olho

Ciclismo
quarta-feira, 01 abril 2026 a 20:00
daniel moreira
Ainda muito jovens, mas já com um palmarés assinalável, Inês Fonseca e Beatriz Guerra começam a afirmar-se no ciclismo nacional. Ambas ambicionam chegar às maiores competições internacionais, como os Jogos Olímpicos, mas, para já, o foco passa por consolidar o seu nome no panorama português. Uma reportagem da revista Sábado permite conhecê-las melhor.

Inês Fonseca, 15 anos

Aos 15 anos, Inês Fonseca apresenta já um percurso impressionante, com resultados relevantes no BTT, estrada e pista. Ao longo da formação, destacou-se de forma consistente, com um domínio evidente nos Encontros Nacionais de Escolas, onde apenas falhou a vitória numa ocasião.
Natural de Glória do Ribatejo, representa a equipa TriumTérmica - Águias de Alpiarça e cumpre uma rotina exigente, com seis dias de treino por semana. Habitualmente percorre cerca de 40 quilómetros por dia nas estradas do concelho de Salvaterra de Magos, o que se traduz em cerca de 1000 quilómetros mensais.
Grande parte dos treinos são realizados de forma individual, com o acompanhamento do pai. “O meu pai acompanha-me, de mota”, explica. Após as aulas, divide o tempo entre a estrada e a preparação específica para BTT, incluindo sessões no complexo desportivo de Alpiarça.
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Inês Fonseca revalida o título nacional de ciclocrosse no escalão sub-17
A época de 2026 já trouxe conquistas importantes. Em janeiro, revalidou o título nacional de ciclocrosse no escalão sub-17 e venceu também a prova de estafetas por equipas (team relay), disputada pela primeira vez em Portugal. Na pista, no Velódromo de Sangalhos, voltou a destacar-se com vitórias nas disciplinas de eliminação e perseguição individual, além de vários pódios noutras provas.
O contacto com o ciclismo surgiu cedo. “Fui ver os meus primos, que são mais velhos, numa prova de BTT, gostei, pedi ao meu pai para ir experimentar e fiquei fascinada”. A partir daí, iniciou um percurso competitivo que rapidamente se traduziu em resultados consistentes. “Nos Encontros Nacionais de Escolas, entre as categorias de Pupilo [6 anos] e Juvenil [14 anos], ganhei sempre, à exceção da primeira vez, em que fiquei em 2º lugar”.
A conciliação entre estudos e competição continua a ser uma prioridade. Frequenta o 10º ano, na área de Ciências e Tecnologias, com o objetivo de seguir uma carreira ligada ao desporto. Ainda assim, não esconde a ambição: pretende fazer do ciclismo profissão, tendo como referência Maria Martins, conhecida no mundo do ciclismo como Tata Martins, atualmente no escalão máximo, o worldtour feminino, a representar a CANYON // SRAM zondacryto.
“Ela é daqui da zona e às vezes treina connosco. É uma referência na pista e na estrada: já ganhou muitas coisas, foi campeã europeia e esteve em dois Jogos Olímpicos. E conseguiu o que eu também ambiciono, que é integrar uma equipa profissional”.
Pensando a médio prazo, aponta aos Jogos Olímpicos de 2032, mas mantém os pés assentes nos objetivos imediatos: “Quero ser campeã nacional de fundo e contra-relógio e conseguir um bom resultado na Volta a Portugal júnior, ganhando a Camisola da Juventude”.

Beatriz Guerra, 19 anos

Com 19 anos, Beatriz Guerra segue um caminho diferente, optando por se focar exclusivamente no BTT, apesar de reconhecer que a estrada poderia oferecer mais oportunidades de carreira.
“É o que eu mais gosto e acredito que posso vir a ser profissional. É possível e temos os exemplos da Raquel Queiroz e da Ana Santos”.
A jovem portuguesa já demonstrou competitividade a nível internacional. Em fevereiro, terminou na sétima posição numa prova de cross-country em Girona, no escalão sub-23. “Foi bom ficar no top 10, até porque esta é uma prova com atletas de todo o mundo. Foi a 4ª vez que participei e em juniores já tinha conseguido o 4º lugar”, revelou.
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Destacam-se também a vitória no Troféu Internacional XCO de Paredes de Coura, 2° lugar na American Series XCO e 3º lugar na Continental Series XCO Melgaço XII.
Antes disso, sagrou-se bicampeã nacional de ciclocrosse na categoria de elite, apesar da idade. “Foi bom para começar, porque quem corre lá fora faz campeonatos e taças do mundo e acaba tarde (em outubro). Em 2026 não vou fazer a época de ciclocrosse, e só fui aos campeonatos nacionais para ganhar ritmo”.
O foco está agora nas provas internacionais de BTT, com os olhos postos no ciclo olímpico. “O meu objetivo é estar lá”, afirma, referindo-se aos Jogos de 2028.
O início no ciclismo surgiu relativamente tarde. “Sempre fiz muitos desportos, natação, atletismo, voleibol, também andei no balé. E com 12 anos, por influência de um amigo, fui experimentar o BTT e gostei”.
Depois de uma fase inicial sem grandes resultados, a evolução foi rápida. “Até aos cadetes [15 anos] nunca ganhei nada. Depois, comecei a treinar todos os dias, com o grupo de competição, e logo no primeiro ano fui campeã nacional de XCO. No seguinte juntei-me à equipa Veloperformance, na estrada, e fui campeã nacional. E em juniores fiquei em 2º lugar, foram as únicas duas vezes em que competi na estrada”.
Aos 16 anos, integrou a equipa de Guilhabreu, o que implicou várias deslocações entre o Algarve e o norte do país. Em 2025, mudou-se definitivamente para o Porto, onde concilia a carreira desportiva com os estudos.
“Comecei a passar muito tempo no Norte, e em 2025 mudei-me para cá, estou a estudar no Porto, a fazer o curso de osteopatia. É duro e cansativo, porque devido aos estágios e às competições no estrangeiro, pela equipa e pela seleção, fico muito tempo fora de casa. No ano passado cheguei a estar dois meses sem ir ver a família ao Algarve”.
Nos rapazes, damos destaque a Gonçalo Costa e Daniel Moreira, que, ainda em fase de formação, já competem além-fronteiras, integrados em estruturas internacionais. Apesar da juventude, ambos apontam a metas ambiciosas, com o objetivo comum de alinhar numa Grande Volta, sendo a Volta a França o grande sonho. “Claro que seria incrível fazer um top 10 ou ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos e em Europeus ou Mundiais, mas nada se compara à Volta a França”, comenta Gonçalo.

Gonçalo Costa, 17 anos

No caso de Gonçalo Costa, a ligação ao ciclismo surgiu muito cedo e em ambiente familiar. “Os meus pais faziam BTT e eu acompanhava-os desde pequeno. Estava sempre a dizer que queria uma bicicleta e com 3 anos a minha avó deu-me uma, daquelas com rodinhas. Peguei nela, dei uma volta e tirei as rodinhas. O meu pai até disse: ‘Parece que nasceste para isto’. Logo nesse dia fiz 1 km de bicicleta para ir para casa da minha avó”.
Pouco depois, aos cinco anos, deu início ao percurso competitivo ao integrar a equipa TomatuBikers, em Famalicão. “Fazíamos gincanas, ali à volta dos cones. No início era só eu e mais dois miúdos, e criaram uma categoria para nós”. Mais tarde, aos nove anos, experimentou a estrada, embora com um episódio curioso na estreia - esteve quase a ser desclassificado porque não correu com andamentos limitados. “Fiquei em 2º lugar. E os comissários tiveram uma atenção especial, porque eu não fazia ideia dessa regra”.
Durante vários anos conciliou o BTT com a estrada, acumulando resultados expressivos, incluindo vários títulos nacionais e uma vitória internacional em Espanha no escalão de cadetes. Ainda assim, optou por apostar na vertente de estrada. “Fui campeão nacional de BTT várias vezes e nos cadetes até ganhei uma prova internacional em Espanha. Se calhar até poderia dar para ser profissional no BTT, mas o risco é 30 vezes maior do que no ciclismo de estrada”, explica.
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Em 2025, deu um passo decisivo ao ingressar na equipa neerlandesa WWV Hagens Berman-Jayco, a estrutura remanescente da Hagens Berman Axeon, mantendo, no entanto, a base em Portugal. “Continuei a viver cá, com os meus pais, mas viajo muitas vezes para a Holanda. Foi duro adaptar-me, tanto a nível físico como psicológico, mas não podia deixar escapar esta oportunidade de poder entrar em provas lá fora”, refere.
Os resultados não tardaram: campeão nacional de estrada em juniores, vice-campeão no contrarrelógio, quarto classificado na Volta a Portugal do escalão e presença em destaque no Giro della Lunigiana, onde terminou entre os melhores jovens.
O futuro passa por dar o salto para o profissionalismo e cumprir o sonho de correr uma Grande Volta. “Entrar no Giro ou na Vuelta também é top, mas o meu sonho é o Tour. E, se tudo correr bem, posso conseguir um bom lugar, porque sou bom trepador e também me dou bem nas etapas do dia a dia”.
Já em 2026, terá uma primeira aproximação a esse objetivo, com a participação prevista no Tour du Valromey, considerada a “mini Volta a França” para juniores.

Daniel Moreira, 19 anos

Já Daniel Moreira viveu um percurso marcado tanto por conquistas como por episódios difíceis. Em 2025, sagrou-se campeão nacional de estrada no escalão sub-23, superando vários contratempos.
“Tentei ganhar [em cadetes e juniores], mas havia sempre alguma contrariedade, como um furo ou uma queda. No ano passado, uma semana antes da prova, tive uma queda a 90 km por hora e abri o joelho. Levei pontos e achei que já não ia participar, mas acabei por recuperar”.
A própria corrida foi atribulada, mas terminou em triunfo. “Fiquei com tanta raiva que ao voltar ao pelotão passei logo para a frente e fui em fuga até ao fim”. A vitória teve um significado especial, dedicada aos avós entretanto falecidos.
O ano ficou também marcado por um momento trágico, com a perda do colega de equipa Samuele Privitera. “Estávamos a fazer o Giro de Valle d’Aosta e ele teve uma paragem cardíaca à minha frente e caiu inanimado. Ainda o levaram para o hospital, mas no final da etapa confirmaram a sua morte. Foi traumatizante, fiquei uma semana sem dormir”.
Apesar do impacto emocional, manteve-se determinado em continuar no ciclismo. “É um desporto muito bonito, de equipa, com muita união”, sublinha. O primeiro contacto com a modalidade aconteceu aos sete anos, influenciado por um familiar. “No início, também jogava futebol no Torre, um pequeno clube de Viana do Castelo, a minha cidade. Até dava uns toques, mas a minha mãe disse-me que não podia andar nas duas coisas e escolhi o ciclismo”.
Após a formação na Tensai e a afirmação nos escalões jovens, destacou-se em provas nacionais e internacionais, passando pela equipa de Paredes antes de dar o salto para o estrangeiro. Competiu pela formação neerlandesa Willebrord, onde venceu a prestigiada Amstel Gold Race, e integra atualmente uma estrutura ligada à Jayco.
Com ambições bem definidas, aponta a médio prazo às Grandes Voltas e aos Jogos Olímpicos. Para já, em 2026, pretende afirmar-se nas principais provas do escalão sub-23. “São dois palcos importantes, duas boas oportunidades para me mostrar”, afirma, estabelecendo como meta “fazer um top 3 ou mesmo um top 5” nas Voltas a Itália e França da categoria, tendo contas a ajustar com a segunda, depois de ter abandonado logo à 2ª etapa, na estreia em 2025.
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