“O meu sonho desde pequeno foi ser ciclista profissional”. O biatleta francês Émilien Jacquelin tornou-se um dos melhores da sua modalidade e, aos 30 anos, muda-se para o ciclismo profissional. O campeão olímpico assinou contrato com a equipa de desenvolvimento da
Decathlon CMA CGM e passa a correr pelo conjunto francês.
“O Émilien sempre manteve laços próximos com a equipa, quer com os ciclistas quer com a equipa técnica”, disse o diretor desportivo Jean-Baptiste Quiclet num
comunicado de imprensa. “O ciclismo já é uma componente-chave do seu treino para o biatlo. Neste ano pós-olímpico, a ideia é dar-lhe a oportunidade de experimentar o ciclismo com o apoio da equipa, para que possa desenvolver as suas capacidades”.
Jacquelin é pentacampeão do Campeonato do Mundo em biatlo, em duas dessas ocasiões em provas individuais. Nos recentes Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina conquistou o primeiro ouro olímpico no Revezamento 4 x 7,5 km, tendo ainda ganho bronze na perseguição individual de 12,5 km. É uma das figuras da modalidade e, tal como
Florian Lipowitz, da Red Bull - BORA - Hansgrohe, no passado, faz agora a transição para o ciclismo.
“Este apoio incidirá sobretudo no treino, com acompanhamento de um treinador e de um nutricionista, fornecimento de equipamento, bem como um estágio em altitude no Arc 1950 com a NewGen. Planeamos realizar um ciclo de avaliação no final da primavera para aferir melhor o seu perfil: a sua potência explosiva no biatlo pode muito bem torná-lo um excelente sprinter na estrada. Aposta-se num forte potencial atlético e num VO2 máx. elevado que, já comprovado nos esquis, deverá afirmar-se na bicicleta”.
Jacquelin não é o primeiro atleta profissional a fazer uma mudança tão acentuada de percurso, embora aos 30 anos seja certamente invulgar. Segue um caminho semelhante ao do antigo piloto de MotoGP Aleix Espargaró, que correu pela Lidl-Trek em 2025.
“É um projeto um pouco louco. É uma ideia, um sonho que tenho há vários anos, e os fãs de biatlo sabem-no há muito tempo […] É uma oportunidade de me desafiar, de provar a mim próprio noutro desporto que sou capaz de render, e também de tentar cumprir um dos sonhos de infância”, disse Jacquelin em entrevista à
RMC Sport.
Não abandona por completo o biatlo, mas vai testar o seu potencial como ciclista profissional, ainda que no projeto de desenvolvimento da equipa, onde competirá sobretudo com sub-23. “Foi após os Jogos de Milão-Cortina que sentimos que era a melhor altura para tentar este desafio em conjunto”. Pouco depois, o acordo ficou fechado.
“Acho que é sobretudo um novo desafio. Não penso que a minha história com o biatlo tenha terminado. Os Jogos de 2030, como já disse e continuo a acreditar, são um objetivo. Trata-se de tentar ser campeão olímpico em França, perante o público francês. Mas também sei que, em certos aspetos, atingi os meus limites no biatlo, e este desafio entusiasma-me. Motiva-me a superar-me todos os dias e creio que preciso disso agora, na minha carreira desportiva e como pessoa”.
Um classicoman em construção?
No biatlo, o peso não é o fator mais relevante e, por isso, entra no ciclismo como um corredor pesado, ainda que muito à base de massa muscular. “Tenho 1,86 m e peso 80 kg hoje, 79 kg no fim da época […] Ainda não falei necessariamente com o nutricionista ou com a equipa sobre isto, mas penso que perder uns bons cinco quilos não faria mal”.
Sabe, porém, que a mudança para a competição será abrupta e exige mais do que bons números em treino. “É um desafio enorme porque o esforço é completamente diferente. No ciclismo, trata-se mais de esforços repetidos. Hoje, sou certamente capaz de ser bom durante 50 minutos num só esforço. Mas repetir isso várias vezes na mesma corrida ou etapa exige um esforço extremo”.
O seu papel deverá ser o de gregário, pelo menos até provar o contrário. “Nos meus primeiros tempos como jovem ciclista, não tinha problema, pelo contrário, em trabalhar para a equipa, descer buscar bidões, trabalhar para um colega que é melhor do que eu ao sprint. Isso sempre me motivou, sempre me inspirou”.
“Nunca estive necessariamente focado em ser líder no ciclismo. O biatlo empurra-nos para essa posição, porque somos todos os nossos próprios líderes. Mas, em qualquer caso, trabalhar em equipa e dar tudo pelos outros ciclistas não é algo que me incomode. Não estou focado em ‘render’ para mim e não para a equipa. Seja qual for o tipo de ciclista que eu for, seja qual for a tarefa que me atribuírem, quero dar 100%”.
A Volta a França e o Paris-Roubaix são corridas que o inspiram e que sonha disputar um dia. Mas, para lá chegar, o caminho é longo. “Estamos no domínio da fantasia, no domínio dos sonhos, porque há muitos passos a dar antes de sequer pensar em corridas WorldTour. Por isso, antes de poder dizer ‘quero correr a Volta a França’, acho que há muito a conquistar primeiro”.