Afonso Eulálio viveu um dia que dificilmente esquecerá na
Volta a Itália. O corredor da
Bahrain - Victorious esteve perto de conquistar a quinta etapa,
acabou batido por Igor Arrieta, mas saiu de Potenza com a camisola rosa e entrou para um grupo muito restrito de portugueses que já lideraram a corrida italiana.
“Não consigo fazer o mesmo do
João Almeida. Ele é superforte, só vou tentar fazer o melhor nos próximos dias”, afirmou o figueirense,
em declarações recolhidas pelo Jornal O JOGO, no final de uma jornada marcada pela chuva, pelas quedas e por quase 180 quilómetros em fuga, numa jornada maratona com mais de 200km e 3000m de acumulado.
A referência a João Almeida surgiu naturalmente. Em 2020, o corredor das Caldas da Rainha surpreendeu o pelotão internacional ao vestir de rosa durante 15 dias. Agora, foi a vez de Eulálio juntar o seu nome ao de Almeida e ao de Acácio da Silva, em 1989, na curta lista de portugueses que chegaram à liderança do Giro.
O dia começou com ataques logo nas primeiras dificuldades montanhosas de uma etapa de 203 quilómetros. Eulálio percebeu cedo que podia ser uma boa oportunidade e mostrou-se bastante ofensivo, ainda a mais de 180 quilómetros da meta. Primeiro ao lado de Einer Rubio e Thomas Silva, depois integrado num grupo mais numeroso, com 12 ciclistas e nomes como Christian Scaroni, Igor Arrieta ou Jhonatan Narváez, além dos citados, que acabou por ganhar espaço suficiente para discutir a vitória.
Com várias equipas representadas na frente, a perseguição do pelotão coube apenas à Lidl-Trek do maglia rosa Giulio Ciccone, e assim que Amanuel Ghebreigzabhier perdeu o gás a fuga ganhou cada vez mais margem. Durante largos quilómetros, o camisola rosa virtual chegou a ser Rubio, mas a corrida voltou a mudar nas dificuldades finais.
Já na última subida do dia, Igor Arrieta atacou isolado. Eulálio esperou pelo momento certo, respondeu aos ataques no grupo perseguidor e conseguiu chegar num ápice ao espanhol da UAE Team Emirates - XRG. Os dois entenderam-se rapidamente e seguiram juntos na frente da corrida.
“A faltarem 50 km acreditava que ia por tudo, também para ganhar a etapa”, contou o português, resumindo a jornada como “um dia de loucos, com a primeira subida, chuva, frio, ataques e depois as quedas”.
E foram precisamente as quedas a mudar várias vezes o desfecho da etapa. A cerca de treze quilómetros da meta, Arrieta escorregou numa curva molhada e caiu. Eulálio ganhou cerca de 35 segundos e parecia encaminhado para o triunfo, mas pouco depois foi o próprio português a ir ao chão.
O nervosismo do português a receber uma nova bicicleta não ajudou e os dois acabaram por se reagrupar, porém ainda houve tempo para novo episódio insólito: já perto da meta, Arrieta enganou-se no percurso e perdeu novamente terreno. Mesmo assim, o espanhol recuperou nos metros finais e acabou por ultrapassar Eulálio já no sprint para a linha de chegada.
“Sem as quedas, era melhor. Deve ter sido o sprint mais lento de sempre”, desabafou o corredor da Bahrain Victorious.
Apesar de ter falhado a vitória na etapa, o prémio de consolação acabou por ser enorme. Com o grupo dos favoritos a perder mais de 7 minutos, Eulálio assumiu a liderança da corrida com uma margem confortável sobre muitos candidatos ao pódio. Jonas Vingegaard está a 6:22, o seu rival de circunstância Arrieta passou a ser um dos rivais mais próximos, ainda assim a quase três minutos.
Nos próximos dias, o português terá pela frente os primeiros grandes testes na montanha, incluindo o Blockhaus (7ª etapa) e o Corno alle Scale (9ª etapa), antes do longo contrarrelógio de 42 quilómetros em Viareggio, terreno teoricamente menos favorável para um corredor leve como ele.
“Vou procurar ser mais consistente”, prometeu.
No final, Eulálio admitiu que a camisola rosa nunca esteve nos planos da equipa.
“A equipa fez o plano perfeito para eu estar na fuga e lutar pela vitória”, explicou, acrescentando que a Bahrain - Victorious “nunca pensou na camisola rosa; acabou por acontecer”. Este feito surge precisamente 5 anos depois da vitória do malogrado Gino Mader, que representava a Bahrain, numa etapa do Giro, há coincidências incríveis...
Ainda sem perceber totalmente o impacto do feito, o jovem português mostrou-se emocionado com a reação que sabe estar a provocar em Portugal.
“Espero que os portugueses acompanhem e se sintam orgulhosos. Os da minha cidade já me conhecem. Quanto a mim, acho que só quando começar uma etapa vestido de rosa vou perceber o que isto significa”, confessou.
O líder do Giro acredita mesmo que poderá manter a camisola durante mais alguns dias.
“Tenho uma vantagem interessante”, disse, esperando continuar de rosa “mais dias”.
O ambiente na Bahrain - Victorious também ajudou a aliviar a tensão de um dia intenso. Eulálio revelou até uma aposta feita com Damiano Caruso, veterano de 38 anos, que terminará a carreira no final da temporada... ou não.
Será que Damiano Caruso continua mais uma temporada?
“Fiz uma aposta com o Damiano: ele disse-me que, se eu ganhasse duas etapas, renovaria por mais um ano. Pedalava a pensar nisso, que só faltaria mais uma, e afinal fui segundo. Vou tentar trocar o acordo, ele assina se eu ficar uns dias de rosa”, contou entre sorrisos.
A prestação do português mereceu elogios da direção da equipa. Franco Pellizotti, diretor desportivo da Bahrain - Victorious no Giro e antigo gregário de Vincenzo Nibali, destacou o orgulho pelo desempenho do jovem corredor.
“Estamos muito contentes com a rosa e orgulhosos dele”, afirmou.
Além da camisola rosa,
Eulálio assumiu também a liderança da juventude e aproveitou o momento no pódio para dedicar o resultado a Santiago Buitrago, líder inicial da equipa, que abandonou a corrida após a queda sofrida na segunda etapa: “Isto também é para ele”, expressou.