“É apenas uma questão de tempo até que enfrente um dia de stress térmico extremo”: Mudanças climáticas encostam a Volta a França à parede

Ciclismo
quarta-feira, 25 fevereiro 2026 a 10:00
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Durante meio século, a Volta a França tem evitado por pouco os cenários mais perigosos de calor extremo. Mas essa margem está a encolher. Um novo estudo internacional alerta que o aumento das temperaturas na Europa está a empurrar, de forma constante, a maior corrida do ciclismo para os seus limites de segurança.
A investigação, publicada na Scientific Reports, foi liderada pelo Institut de Recherche pour le Développement (IRD) no âmbito do projeto europeu TipESM, em colaboração com a London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) e o ISGlobal de Barcelona. Os cientistas analisaram dados meteorológicos de 50 edições da Volta entre 1974 e 2023 para avaliar o nível de stress térmico enfrentado pelos ciclistas.
A conclusão é clara: o risco aumentou de forma consistente, sendo a última década responsável pelo maior número de episódios de calor extremo registados durante a prova. Embora o Tour tenha, até agora, evitado ultrapassar o limiar máximo de risco para a saúde, em vários casos fê-lo por apenas alguns dias e até frações de grau.
“De certa forma, podemos dizer que é uma corrida extremamente afortunada, mas com as vagas de calor a baterem recordes cada vez mais frequentemente, é apenas uma questão de tempo até que a Volta a França enfrente um dia de stress térmico extremo que ponha à prova os protocolos de segurança existentes”, afirmou Ivana Cvijanovic, investigadora do IRD e autora principal do estudo.
Ela destacou como algumas cidades-anfitriãs se têm aproximado repetidamente de níveis perigosos. “Paris, por exemplo, ultrapassou cinco vezes em julho o limiar de alto risco de calor, quatro delas desde 2014. Outras cidades registaram muitos dias de calor extremo em julho, mas, felizmente, não durante uma etapa da Volta”.
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Não raras vezes vimos ciclistas com o maillot aberto durante a Volta a França
A análise identifica várias regiões vulneráveis. No sudoeste de França, zonas perto de Toulouse (29,7°C em 2020), Pau (28,8°C em 2019) e Bordéus (30,1°C em 2019) registaram valores preocupantes. No sudeste, áreas em torno de Nimes (30°C em 2020) e Perpignan também se destacaram. Mais a norte, Paris (28,8°C em 2019) e Lyon aproximam-se cada vez mais do limiar de alto risco, surgindo como novos pontos críticos.

Alta montanha não está imune ao aumento das temperaturas

Em contraste, as etapas de alta montanha mantiveram-se historicamente dentro de faixas de risco térmico baixo ou moderado. Subidas icónicas como o Col du Tourmalet e o Alpe d’Huez têm, em geral, oferecido condições mais benignas. No entanto, os investigadores sublinham que nem mesmo estas etapas estão imunes à tendência geral de aquecimento.
Para medir o impacto do calor, a equipa utilizou o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), que combina temperatura, humidade, radiação solar e vento. Compararam os resultados com o protocolo da UCI, que classifica valores acima de 28°C WBGT como de alto risco. O estudo constatou que as manhãs continuam a ser o período mais seguro do dia, enquanto o stress térmico elevado se pode prolongar bem pela tarde.
Para lá do ciclismo, os investigadores defendem que as conclusões devem servir de alerta para o desporto de verão em toda a Europa. O calor extremo afeta não só a performance, como também representa um sério risco para a saúde. Se as atuais tendências climáticas continuarem, os organizadores poderão ter de repensar calendários, horários de etapas e protocolos médicos para se adaptarem a condições cada vez mais exigentes.
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