A semana de ciclismo marcada em simultâneo por
Tirreno-Adriatico e
Paris-Nice deixou dois nomes em destaque na análise do jornalista Javier Ares no seu
canal de YouTube. Por um lado, a afirmação definitiva de
Isaac del Toro como força emergente no pelotão WorldTour; por outro, o domínio de
Jonas Vingegaard na corrida francesa.
O espanhol começou por sublinhar o peso da vitória de Del Toro na Corrida dos Dois Mares, um desempenho que, no seu entender, confirma a progressão já evidenciada nos últimos meses. Ares lembrou que o ciclista da UAE deixara sinais muito claros do seu potencial, mas que este triunfo representa mais um passo na sua consolidação no ciclismo mundial.
Na sua análise, explicou que o triunfo do mexicano não se resumiu à força física, mas também à maturidade tática. Como referiu: “Hoje (6.ª etapa) o Del Toro ganhou porque foi o melhor, sem dúvida, naquele final duro e exigente que fechou a penúltima etapa da corrida, mas o Del Toro também ganhou porque soube correr com a inteligência necessária para deixar a cabeça guiar os músculos e o motor fenomenal que tem.”
Ares vincou que a chave da etapa esteve na forma como o jovem geriu os ataques dos rivais na subida decisiva. Nesse momento, vários corredores tentaram agitar a geral, obrigando o líder a responder a diferentes movimentações.
O jornalista explicou que um dos momentos mais delicados surgiu quando Giulio Pellizzari desferiu um ataque muito potente que, por instantes, pareceu ameaçar a posição do mexicano na geral. Porém, longe de entrar em pânico, Del Toro manteve a serenidade.
Ares descreveu assim: “Teve a paciência, a esperteza de deixar o Pellizzari ganhar alguns metros. Pareceu-lhe preocupante, estava a 30 segundos na geral e, com as bonificações e tudo isso, chegar com alguns segundos podia ter posto em causa a maglia azzurra do mexicano.”
Isaac del Toro, a estrela mexicana em ascensão no ciclismo mundial (UAE)
Essa capacidade de esperar pelo momento certo revelou-se decisiva. Como explicou o jornalista, Del Toro aproveitou o trabalho dos outros para neutralizar o movimento e guardou energia para o final. Assim que a situação estabilizou e as acelerações dos rivais ficaram sob controlo, chegou a sua hora.
No trecho final da subida, o mexicano respondeu a novo arranque, desta vez de Matteo Jorgenson, e selou a etapa com um ataque decisivo que lhe permitiu cortar a meta isolado. Ares descreveu assim o desfecho: “Uma vez anulado o Pellizzari, já com pouco mais de um quilómetro para a meta, cobriu um grande ataque do Matteo Jorgenson… e, quando chegou a parte mais íngreme, o Del Toro arrancou, foi até à linha, terminou isolado, venceu a etapa e desferiu um golpe decisivo na classificação geral.”
Para o analista, a exibição do mexicano confirma que tem não só talento, mas também a capacidade estratégica para competir ao mais alto nível. Acrescentou que experiências passadas também contribuíram para o seu crescimento enquanto corredor.
Ares explicou, lembrando as dificuldades que o ciclista já enfrentara: “Também se aprende com isso, com isso e com qualquer outro incidente. Um profissional tem de somar vitórias, tem de somar derrotas, tem de colecionar dias de glória e também lidar com a adversidade.”
A partir desta prestação, o jornalista abriu o debate sobre o futuro do mexicano e o seu papel na UAE. Ares lembrou que o corredor é ainda muito jovem e que o seu calendário está moldado pelos grandes líderes da equipa, especialmente com a Volta a França em mente.
Nesse sentido, destacou que o mexicano irá correr a grande volta francesa em apoio a Tadej Pogacar, algo que pode frustrar alguns adeptos face ao nível atual. Contudo, Ares argumentou que a experiência poderá ser fundamental para o seu desenvolvimento.
O jornalista resumiu de forma clara: “Tem 22 anos. É frustrante, porque o vemos assim e pensamos que pena o Del Toro não poder ser a alternativa a Jonas Vingegaard quando chegar a Volta a Itália. Mas também lhe convém fazer o Tour, e quanto mais cedo melhor, ao serviço do Pogacar e, possivelmente, com um grande papel.”
Na sua perspetiva, a progressão do mexicano é evidente e, a cada época, dá mais um passo em frente. Ares recordou que, há pouco mais de um ano, o seu papel na equipa era muito diferente.
“No fim de contas, cada temporada é em alta. Por esta altura no ano passado ajudava o Juan Ayuso a ganhar o Tirreno-Adriatico, e depois foi tenente na Volta a Itália. Este ano deu o passo para vencer corridas WorldTour.”
Vingegaard e Paris–Nice
Depois da corrida italiana, Ares passou para o Paris-Nice, uma edição marcada por condições meteorológicas extremas que obrigaram a alterações na penúltima etapa.
O jornalista explicou que o dia ficou praticamente desvirtuado pela chuva torrencial na região de Nice, o que forçou os organizadores a encurtar o percurso para pouco mais de 47 quilómetros.
Ares descreveu assim a partida: “A previsão era de dilúvio no sul de França e em toda a Riviera, mas foi ainda pior. Os corredores nem sequer conseguiam assinar a partida.”
Perante esse cenário, a organização transportou o pelotão de autocarro ao longo de grande parte do traçado antes de se correr a secção final. O resultado foi um dia quase anedótico do ponto de vista desportivo.
Jonas Vingegaard, uma estrela global do ciclismo
“A etapa foi reduzida a apenas 47 quilómetros, pouco mais do que uma formalidade”, resumiu o jornalista.
Apesar desse contexto, a corrida francesa já tinha o vencedor praticamente decidido. Jonas Vingegaard construíra uma vantagem muito sólida na geral e, salvo incidente, a vitória parecia assegurada.
Ares recordou as diferenças que o dinamarquês levava antes da etapa final, que refletiam claramente o seu comando da prova: “A classificação geral está mais do que decidida a favor de Jonas Vingegaard.”
O jornalista notou ainda que a última etapa podia oferecer espetáculo pelo traçado montanhoso, com várias subidas encadeadas em torno de Nice. No entanto, as diferenças na geral tornavam muito improvável qualquer mudança significativa.