“Fizeram-me acreditar que seria o novo Tadej Pogacar” Jovem da Emirates regressou à realidade após a pressão que sentiu

Ciclismo
terça-feira, 17 fevereiro 2026 a 13:00
torres
Após um impressionante segundo lugar no Tour de l’Avenir 2024, o jovem espanhol Pablo Torres, então com apenas 19 anos, saiu do anonimato para os holofotes. As exibições nas etapas de montanha deixaram muitos de boca aberta e, embora tenha perdido a geral para Joseph Blackmore, o espanhol venceu duas etapas e estabeleceu um novo recorde na chegada ao Colle delle Finestre, melhorando uma marca que pertencia ao lendário Chris Froome.
Matxin não hesitou e colocou em cima da mesa um contrato de longa duração, até final de 2030, um claro voto de confiança, mas também um movimento que, inevitavelmente, elevou o nível de expectativas em torno do seu nome.
O próprio Torres assume aquele Tour de l’Avenir como um ponto de viragem na carreira, mesmo que nem tudo o que se seguiu tenha sido fácil de gerir. “Até hoje, foi também a minha melhor prestação”, recorda. “Foi a corrida que me deu a oportunidade de subir ao WorldTour. Super positivo, claro, mas talvez também um presente envenenado. A partir desse momento, senti muita pressão nos ombros. As pessoas fizeram-me acreditar que eu seria um novo Tadej Pogacar”, confessou ao wielerflits.
O entusiasmo em torno do seu talento transformou-se rapidamente numa expectativa permanente. E, como admite, viver com essa pressão constante pode ser difícil para um corredor ainda em desenvolvimento. “Se toda a gente me diz isso, em segredo vou querer corresponder. Mas, se depois não consegues entregar o que as pessoas esperam, isso provoca um recuo ainda maior e maus sentimentos na cabeça”.
A transição para o pelotão do WorldTour acabou por revelar uma realidade mais dura do que o antecipado. O seu primeiro ano como profissional foi marcado por contratempos físicos e um choque competitivo inevitável. “Tive de lidar com uma lesão no início e, mais tarde, com uma queda com bastante impacto. Não foi um início de sonho. Percebi também que a diferença de nível entre sub-23 e WorldTour é muito grande. Por outro lado, talvez tenha sido um ano importante de aprendizagem, em que conheci de imediato o lado mais negro do ciclismo. Mas isso também foi interessante. É positivo ter aprendido muito, mas não estou satisfeito com os resultados. Isso tem mesmo de melhorar no próximo ano”.
Pablo Torres na partida do Giro Next Gen 2024
Pablo Torres à partida do Giro Next Gen 2024
Esse processo de adaptação tornou-se ainda mais exigente por causa da pressão externa. A narrativa de que deveria ganhar depressa ao mais alto nível não acompanha o ritmo natural de evolução de muitos jovens. “Sem dúvida. Acho que há muita pressão sobre os jovens corredores. Também a sinto. Toda a gente acha que vou ser um bom corredor, e têm esse direito. Mas também pensam que vou passar a profissional e ganhar logo as primeiras corridas. Claro que não funciona assim. Cada um tem o seu percurso de crescimento e de carreira. Preciso de me focar em mim e não ouvir o que as pessoas dizem. Mas isso é difícil, porque todos querem que eu ganhe”.
Por vezes, esse peso psicológico teve impacto direto no rendimento competitivo. “Se for honesto, sim. Acho que me faz render menos. Se não ganhas, não significa que estejas mal. Mas é assim que às vezes me sinto. Isso tornou-se frustrante a certa altura. Começas a pensar que não és bom o suficiente. É mesmo duro para um jovem. Mas agora encontrei ajuda dentro da equipa e ajudam-me a focar-me em mim”.
Na estrutura da UAE Team Emirates - XRG, Torres encontrou referências importantes, incluindo o bicampeão do mundo Tadej Pogacar. Embora o contacto direto não seja constante, o simples facto de observar o esloveno tem-lhe bastado para tirar lições valiosas. “Para ser sincero, não passamos assim tanto tempo juntos. Fizemos alguns estágios em conjunto e, no ano passado, corremos juntos uma vez na Tre Valli Varesine. Foi um sonho correr com ele. E também é interessante ver como está relaxado antes de uma corrida. Isso ajuda os outros a relaxar. Se vês que o líder se sente bem e desfruta, ele transmite isso ao resto”.
O plano competitivo para o futuro ainda não está totalmente definido, precisamente porque a equipa acredita que o seu teto de rendimento continua por descobrir. “Na verdade, não está 100% claro. Nunca fiz uma Grande Volta. Eles sabem que ainda posso melhorar muito, mas ainda não sabem quanto. Quando estou em grande forma, tenho números muito bons. E, se fizer tudo bem, tenho o nível certo. Só que é difícil lidar com a pressão. Acredito que ainda posso tornar-me um corredor muito bom. E a equipa também”.
A nova época surge como mais um capítulo desse processo gradual. Torres sente-se fisicamente mais forte e mais confortável no pelotão, mas ainda lida com alguns problemas físicos que travam o progresso. “Treinei bem todo o inverno. Já me sinto mais forte no grupo e um pouco mais confortável no pelotão. Este ano posso construir sobre a experiência do ano passado, mas tenho tido problemas no joelho desde as primeiras corridas. Passou depois de descansar um pouco, mas em Omã o problema voltou. Agora é importante voltar a descansar e depois subir até um bom nível”.
Em termos de objetivos, a ambição é clara, mas acompanhada de realismo. “Um nível em que possa alcançar a minha primeira vitória como profissional. Sei que será difícil, mas treino muito para ganhar. Mas não se preocupem, mesmo que não consiga, vou continuar a tentar no ano seguinte. Passo a passo”.
Quanto à possibilidade de se estrear numa Grande Volta, a decisão ainda não foi tomada. “Ainda não foi discutido. Talvez esperemos, mas talvez a Vuelta no final do ano seja uma opção. Não vou forçar, mas pode ser uma possibilidade. Primeiro, torna-se importante ser mais consistente nas corridas mais pequenas e libertar-me dos meus problemas. Depois podemos pensar no passo seguinte”.
Para já, o caminho de Torres continua a fazer-se com paciência, algures entre um talento evidente e a necessidade de um crescimento progressivo. Num pelotão cada vez mais exigente e impaciente, o jovem espanhol procura encontrar o seu próprio ritmo, passo a passo, numa carreira que ainda agora começou.
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