O contrarrelógio da 10ª etapa de
Jonas Vingegaard na
Volta a Itália gerou debate, mas
Robbie McEwen não o vê como prova de que o líder da
Team Visma | Lease a Bike está em apuros.
Vingegaard entrou no teste de 42 km entre Viareggio e Massa amplamente apontado para tirar a Maglia Rosa a Afonso Eulalio. Em vez disso, o dinamarquês foi 13º na etapa, a três minutos do dominador Filippo Ganna, e reduziu a vantagem de Eulálio na geral para 27 segundos sem, contudo, vestir de rosa.
Para alguns, isso tornou a 10ª etapa um dia aquém do esperado para o favorito ao Giro. Para McEwen, o resultado precisa de mais contexto.
Em declarações ao The Breakaway, da TNT Sports, o australiano recuou à última Volta a França como evidência de que a dificuldade de Vingegaard em igualar os maiores motores num contrarrelógio totalmente plano não é novidade.
McEwen aponta para um padrão nos contrarrelógios planos
Jonas Vingegaard em ação durante o contrarrelógio individual da etapa 10 na Volta a Itália de 2026
“Tem sido um padrão nestes contrarrelógios planos”, notou McEwen. “Olhas para o Tour do ano passado, o Vingegaard também foi 13º, tal como hoje. Nessa ocasião, perdeu cerca de um minuto e meio para o Remco Evenepoel”.
A comparação importa porque o desempenho de Vingegaard no Giro pareceu mais dececionante face às expectativas da véspera do que em relação ao seu registo recente em condições semelhantes. O dinamarquês construiu a reputação na escalada, na recuperação e na consistência em Grandes Voltas, mais do que na pura potência em plano.
A 10ª etapa foi quase talhada à medida para ciclistas com maior capacidade de potência contínua. Ganna arrasou para vencer em 45:53, enquanto Thymen Arensman foi segundo e saltou para o pódio da geral. Derek Gee e Ben O’Connor também assinaram desempenhos fortes num dia em que a potência sustentada contou mais do que a eficiência em subida.
McEwen foi claro ao colocar Ganna noutra categoria neste terreno. “Tens de deixar o Filippo Ganna fora disto”, afirmou. “Ele é de outro mundo, é um extraterrestre”.
“Falta-lhe a força bruta pura”
A grande questão era a comparação de Vingegaard com os restantes candidatos à geral. Ganhou 1:57 a Eulálio, 1:22 a Felix Gall e 31 segundos a Jai Hindley, mas perdeu 1:06 para Arensman e tempo para O’Connor e Gee.
McEwen admitiu que essa parte foi mais surpreendente, sobretudo porque Vingegaard parecia solto na bicicleta, sem sinais evidentes de quebra. “Mas face aos outros candidatos à geral, os que estão à sua volta, esperávamos que o Jonas fosse o melhor desses, e ele parecia bem”, realçou McEwen. “Muitas vezes, quando um corredor está a passar dificuldades, isso nota-se, mas ele parecia bem”.
A sua explicação não foi que Vingegaard esteja subitamente fraco, mas que este tipo de percurso expõe uma limitação muito específica. “Acho que um percurso realmente plano já não é a praia dele”, acrescentou McEwen. “É tão leve, de construção leve, hoje mais um puro trepador do que outra coisa. Falta-lhe a força bruta pura”.
Essa leitura dá um significado diferente ao resultado da 10ª etapa. Vingegaard não concretizou a tomada da Maglia Rosa que muitos esperavam, mas o traçado pode ter amplificado as virtudes de ciclistas mais talhados para a potência crua do que para a eficiência na montanha.
Stephens continua a ver sinais de alerta
Matt Stephens foi mais cauteloso na análise. Considerou a prestação aquém do esperado para Vingegaard, sem esquecer o mérito de Afonso Eulálio em limitar perdas e manter o rosa.
“Esperávamos que ele ganhasse tempo a Eulálio”, disse Stephens. “Acho que é uma combinação de duas coisas. Sejamos honestos. Por qualquer razão, e esperamos perceber quando o ouvirmos, foi uma prestação abaixo do nível do Jonas. Mas, ao mesmo tempo, uma prestação excecional do Eulálio”.
Stephens levantou também a hipótese de Vingegaard não ter chegado ao Giro no pico absoluto, especialmente com o Tour ainda por vir no verão. “Estamos a ver um Jonas Vingegaard um pouco ‘cru’ a entrar nesta corrida?”, questionou.
A dúvida não nasce só do contrarrelógio. Vingegaard já venceu as duas chegadas em alto deste Giro, mas as diferenças nesses dias não foram tão grandes como alguns esperavam para um corredor do seu estatuto.
“Esperávamos que ele metesse mais do que 12, 13, 14 segundos ao Felix Gall nas duas últimas chegadas em alto?”, continuou Stephens. “Isso deveria ter sugerido que talvez não esteja a 100% por causa do que aí vem no verão com a Volta a França? São questões pertinentes, mas ainda assim uma prestação inesperada do Jonas”.
Giro continua inclinado para Vingegaard
A 10ª etapa deixa duas verdades lado a lado. Vingegaard não assinou o número que muitos aguardavam e falhou a oportunidade de tirar o rosa a Eulálio. Mas também ficou a 27 segundos da liderança do Giro, com as etapas mais duras de montanha ainda por disputar.
O argumento de McEwen é, por isso, relevante. Se a preocupação é que Vingegaard foi batido num contrarrelógio plano e de potência por ciclistas maiores e por especialistas puros, isso poderá dizer mais sobre o percurso do que sobre o Giro no seu conjunto.
O verdadeiro teste chega agora, com o regresso da corrida à montanha. Se Vingegaard começar a perder aí a sua vantagem, as dúvidas vão crescer. Para já, a 10ª etapa tornou o Giro mais interessante, mas não alterou o facto básico de que o que vem pela frente lhe é muito mais favorável do que o caminho até Massa alguma vez foi.