"Há um mês, o contrarrelógio ia ser um dia de descanso, mas agora temos de ir a fundo": Afonso Eulálio quer fazer-se valer dos "superpoderes" da rosa

Ciclismo
segunda-feira, 18 maio 2026 a 23:04
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Afonso Eulálio continua a viver dias inesperados na Volta a Itália. A camisola rosa colocou o jovem português no centro das atenções e multiplicou as mensagens, entrevistas e chamadas recebidas desde que assumiu a liderança da geral. No meio de toda essa agitação, houve até uma chamada perdida do Presidente da República, António José Seguro.
Durante a conferência de imprensa realizada em Lucca, no dia de descanso do Giro, o corredor da Bahrain - Victorious contou o episódio com naturalidade, durante a conferência de imprensa do dia de descanso, em declarações recolhidas pelo Jornal A Bola. «O Presidente tentou ligar-me e deixou-me uma mensagem. Penso que devo estar a fazer algo bom», revelou, explicando depois porque não conseguiu atender. «Nestes dias, tenho tantas chamadas e mensagens que não atendi e, umas horas depois, recebi a mensagem».
Entre os muitos contactos recebidos nos últimos dias esteve também Rui Costa, campeão do mundo em 2013, retirado em 2025 e uma das referências de infância de Eulálio. O figueirense recordou ainda o percurso que o levou até ao WorldTour, começando pelas voltas de BTT com amigos depois das aulas, antes de passar definitivamente para a estrada em 2019.
Aos 24 anos, o português admite que ainda está a tentar perceber tudo o que lhe aconteceu desde que vestiu a camisola rosa. Apesar da exposição mediática e da dimensão do momento, confessou sentir falta das coisas mais simples. «Em dois meses, tenho três, quatro dias em casa. Quando vamos para casa, para nós é como estar de férias. Agora, ter tempo para estar em casa, é o meu hobby favorito», contou.
A rotina do Giro, no entanto, pouco espaço deixa para descanso ou tranquilidade. «Quase todos os dias vou-me deitar às 23h30, meia noite, e no outro dia estou a pé às 7h00», explicou, lamentando também o pouco tempo disponível para contactar com a família e os amigos em Portugal.
Diego Pablo Sevilla (Montanha), Paul Magnier (Pontos), Afonso Eulálio (Geral) e Igor Arrieta (Juventude) vestiram as camisolas de líder à partida da etapa 6 do Giro.
Diego Pablo Sevilla (Montanha), Paul Magnier (Pontos), Afonso Eulálio (Geral) e Igor Arrieta (Juventude) à partida da 6ª etapa do Giro
Adepto assumido do Benfica, Eulálio reconheceu que nunca imaginou chegar tão cedo a esta dimensão no ciclismo internacional. «Não sonhava estar no WorldTour, menos ainda estar vestido de rosa», afirmou. O português destacou igualmente a importância que teve a Volta a Portugal de 2024 no seu crescimento, corrida onde também chegou a liderar a classificação geral.
Já instalado no pelotão internacional desde a última temporada, o corredor da Bahrain apontou Nelson Oliveira como uma das suas maiores referências no ciclismo português. Dentro da própria equipa, destacou o veterano Damiano Caruso, pódio no Giro 2021, como uma figura importante pela experiência e liderança.
O ambiente vivido em Portugal também não lhe passou ao lado. Em Cacia, distrito de Aveiro, onde reside com a namorada, várias ruas foram decoradas com fitas cor-de-rosa em homenagem ao líder do Giro, algo que deixou o jovem português particularmente emocionado.
Apesar de manter um discurso prudente, Eulálio não esconde que começa a olhar para objetivos mais ambiciosos nesta edição da corrida italiana. «Sonhar é grátis. Gostaria de fechar no top 10 e ganhar uma etapa. Seria fechar com chave de ouro. Sonhar é grátis, depois veremos o que serei capaz de fazer», afirmou.
O grande desafio imediato surge já no contrarrelógio de 42 quilómetros, terreno que reconhece não favorecer as suas características. Ainda assim, garante que vai tentar defender-se perante corredores como Jonas Vingegaard, o principal candidato à vitória final. «Quando vesti a rosa senti superpoderes, mas quando a perder não sei como será. Faltam duas semanas e tudo pode acontecer. Acredito que posso vir a fazer bons contrarrelógios, duvido que seja o caso deste porque é totalmente plano e é pura velocidade. É o pior contrarrelógio para um peso-pluma», admitiu.
O português revelou também que a abordagem à etapa mudou completamente depois de assumir a liderança da prova. «Estivemos a afinar a bicicleta e a ajustar o fato. Há um mês, o contrarrelógio ia ser um dia de descanso, mas agora temos de ir a fundo, as coisas mudaram. Tentei melhorar, trabalhei um pouco, mas não muito, porque vim como gregário, para ter oportunidades na montanha; agora é preciso ir a fundo. Espero defender-me e vou lutar, mas o Jonas é um dos melhores do mundo. É o Jonas. Vou dar tudo o que tenho», garantiu Eulálio, que vai para a estrada às 15h31.
Afonso Eulálio assumiu a camisola rosa na quinta etapa, disputada a 13 de maio, depois de um duelo épico com Igor Arrieta, marcado por quedas de ambos e um engano de percurso, e já entrou para a história do ciclismo português. O corredor da Bahrain - Victorious ultrapassou os dois dias de liderança de Acácio da Silva, registados em 1989, e ficou apenas atrás dos 15 dias de João Almeida em 2020. Em 109 edições da Volta a Itália, esta é apenas a terceira vez que um português lidera a classificação geral da corrida.
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