Afonso Eulálio já se afirmou como uma das grandes esperanças do ciclismo português e, no percurso até ao WorldTour, houve figuras determinantes no seu crescimento. Uma delas foi Joaquim Andrade, actual director desportivo da
Feirense - Beeceler, último treinador do jovem antes da mudança para a
Bahrain - Victorious.
Numa entrevista ao jornal
O Jogo, o técnico recordou os primeiros passos de Eulálio na equipa fogaceira e explicou porque percebeu cedo que estava perante um ciclista diferenciado.
“Foi descoberto no BTT”
Joaquim Andrade revelou que o primeiro contacto que teve com Afonso Eulálio aconteceu ainda na formação da Feirense, depois de o jovem ter sido identificado no BTT. O director desportivo explicou que começou rapidamente a acompanhar a sua evolução e que houve um momento específico em que percebeu o potencial do jovem ciclista.
“Foi descoberto no BTT, quando chegou ao Feirense falei com ele e fui acompanhando a equipa. Já no final de época vi-o numa corrida em circuito em que andava sempre pelos dez melhores, mas nunca na frente e parecendo em dificuldades, até que, na última volta, ele aparece isolado. Percebi logo que ali havia talento”, recordou.
Segundo Andrade, os primeiros anos de Eulálio nos juniores da então Vito - Feirense foram marcados por uma progressão muito rápida, mesmo numa fase complicada da carreira devido a uma lesão num joelho que limitou parte da época onde o pelotão foi afectado pelas restrições causadas pela pandemia da Civid-19.
Ainda assim, o técnico sublinhou que o português começou rapidamente a mostrar sinais de muita qualidade em provas importantes. Um dos momentos que mais o marcou aconteceu no Circuito de Getxo, numa corrida marcada pelo muito frio, pela chuva e pelas quedas.
“Apesar disso, foi ao Circuito de Getxo, onde estava toda a gente, e viu o Damiano Caruso ganhar. Chovia, caiu duas vezes, chegou muito atrasado, mas no final o Rafael Reis disse logo que tínhamos ali uma pérola”, contou.
Afonso Eulálio defendeu-se com bravura no CRI de 42 km do Giro e mantinha-se na liderança da corrida no final da etapa
O crescimento na Feirense e a explosão nas provas nacionais
A ligação entre Afonso Eulálio e a Feirense fortaleceu-se rapidamente. Joaquim Andrade lançou o jovem no pelotão, acompanhando de perto a sua afirmação nas provas portuguesas.
O técnico destacou especialmente a forma como o corredor começou a mostrar agressividade ofensiva e vontade de atacar, características que mais tarde viriam a tornar-se uma imagem de marca do ciclista.
“No Grande Prémio O JOGO fez uma primeira etapa espectacular, vestiu a camisola de melhor jovem e disse-lhe logo que, a partir daí, tinha de a defender”, lembrou.
Em 2024 chegaram resultados mais expressivos, com triunfos em etapas nos
Grandes Prémios de Torres Vedras e Jornal de Notícias, além de ter passado
cinco dias na liderança na Volta a Portugal, tendo terminado no Top-10 e um surpreendente quinto lugar na Volta às Astúrias.
Joaquim Andrade revelou mesmo que a Bahrain - Victorious começou a acompanhar o corredor depois da prestação no Circuito de Villafranca de Ordizia.
“Não me surpreendeu ele impor-se numa equipa WorldTour, surpreendeu-me foi a rapidez com que aconteceu”, admitiu.
“Tem aquele sorriso que desarma qualquer um”
Para além das qualidades físicas, o director desportivo da Feirense - Beeceler fez questão de destacar o lado humano de Afonso Eulálio, considerando que esse aspecto também ajudou o jovem ciclista a adaptar-se rapidamente ao mais alto nível.
“Tinha capacidades, mas mostrá-las podia ser uma questão de tempo. Teve-as cedo devido a outra arma que ele tem: a sua maneira de estar, a simpatia, a dedicação aos colegas. É daqueles sempre prontos a fazer tudo pela equipa”, afirmou.
Andrade terminou a caracterização do português com uma frase que, segundo o próprio, define bem o ciclista. “E tem aquele sorriso que desarma qualquer um.”
A Bahrain - Victorious posa para a fotografia durante a 21ª e ultima etapa da Volta a Itália de 2026
A impulsividade como traço a melhorar
Apesar do enorme potencial, Joaquim Andrade acredita que ainda existe margem de crescimento no jovem natural da Figueira da Foz. Um dos aspectos que considera importante melhorar é a gestão emocional e táctica em determinados momentos de corrida.
“É muito impulsivo, característica que é normal e um dos seus pontos fortes, mas haverá situações em que precisará de o controlar e isso acontecerá com a aprendizagem”, explicou.
Ainda assim, o Joaquim Andrade acredita plenamente na capacidade de evolução de Afonso Eulálio e não esconde a convicção de que o português poderá discutir resultados importantes nas Grandes Voltas.
“Acredito que um dia poderá lutar pelo pódio de uma Grande Volta. Isso terá uma dimensão enorme, precisará de uma oportunidade, mas acredito que tem essa capacidade”, disse.
Um futuro risonho antevisto em 2023
Na redação da CiclismoAtual ainda temos na retina uma conversa que tivemos com o director desportivo dos Fogaceiros, antes da partida para a ultima etapa do Grande Prémio Jornal de Noticias de 2023, onde Andrade já sabia que a sua jovem pérola estaria destinada a mais altos voos.
"Ele não sai este ano. Se sair é para o ano (final de 2024 ed.). Se não for para o WorldTour ele não vai embora, fica connosco", disse Joaquim Andrade na altura. Ele não tinha uma bola de cristal, no entanto não se enganou. Eulálio sairia no final do ano seguinte.
O nosso Quim continua a trabalhar com jovens ciclistas, pois é assim que eles podem mostrar as suas qualidades, ter oportunidades e mostrar que sim, é possível um ciclista do escalão Continental dar o salto para a grande montra do ciclismo, contrariando a velha retórica de que participar numa Grande Volta, como a
Volta a Itália, não passa apenas de um sonho.