Laurens ten Dam tornou-se ciclista profissional em 2004, num período conturbado para o ciclismo internacional. Quando ingressou na Rabobank, em 2008, o pelotão ainda se tentava reerguer após anos marcados por escândalos de doping - incluindo o célebre caso de Michael Rasmussen, que abalou a Volta a França de 2007. O ambiente era de desconfiança, e a reconstrução da credibilidade do desporto estava longe de concluída.
Numa recente entrevista ao podcast Clubhuis Team Lucas, ten Dam refletiu sobre a sua entrada no WorldTour durante essa fase crítica. Curiosamente, o antigo ciclista holandês não revela ressentimento face aos que, na altura, optaram por caminhos menos limpos.
“Nunca me senti frustrado com isso”, disse, referindo-se aos ciclistas que competiam sob o efeito de substâncias dopantes durante os seus primeiros anos no pelotão.
O percurso de Ten Dam foi moldado tanto pelas suas convicções como pelas pessoas que o rodearam. Quando começou a sua carreira na Bankgiroloterij, em 2004, vinha de um passado modesto - com apenas duas vitórias como júnior - e não se considerava um talento geracional.
“Eu não era como o Thomas Dekker, que ganhava tudo. Admirei o Matthé Pronk, que era abertamente contra o doping. Ele dizia que queria poder olhar os filhos nos olhos e dizer que nunca prejudicou a saúde por tomar algo que não devia".
A influência de figuras como Pronk foi determinante para que Ten Dam seguisse um caminho íntegro. Mais tarde, na Unibet, trabalhou sob a orientação de Andre Mihailov, médico com um passado ligado à equipa TVM nos anos 90 — uma referência associada a práticas duvidosas. Ainda assim, Ten Dam destaca a clareza da mensagem que recebeu:
“Ele disse-me: ‘Tens um dom de Deus. Nunca te dopes’. Confessou que também tomou EPO, mas que isso só o fez andar um pouco mais depressa - nunca o suficiente para ganhar. Só lhe trouxe stress e problemas".
A carreira de Ten Dam desenvolveu-se com consistência e honestidade. Começou com um salário de 22 mil euros como neo-profissional, duplicou ao ingressar na Unibet, e voltou a duplicar com a entrada no Rabobank — onde teve, finalmente, a oportunidade de correr a sua primeira Volta a França.
Essa transição coincidiu com a implementação de uma nova política interna na equipa neerlandesa:
“Foi quando entrou em vigor a política de tolerância zero. Por isso, safei-me bem. Estava rodeado de pessoas que me aconselharam corretamente".
Ao recordar antigos colegas, Ten Dam reconhece como o percurso de um ciclista pode ser moldado por pequenos momentos e decisões:
“O Theo desistiu ao fim de três anos. O Thomas envolveu-se com o Boogerd em Viena. Eu tive sorte por ter ao meu lado duas pessoas que me afastaram disso. Também foi uma questão de sorte".
Apesar das boas influências no pelotão, Ten Dam sublinha que o maior pilar de estabilidade veio de fora do desporto: a sua mulher, Thessa.
“Ela dizia-me: ‘Se eu descobrir alguma coisa, acabou-se’. Era professora do secundário. Dizia: ‘Podes conduzir o carro que quiseres, mas se o frigorífico estiver cheio de EPO, como é que vais dar a cara às pessoas?’”
Com uma carreira sólida, marcada pela transparência e pelo respeito, Laurens ten Dam tornou-se um exemplo de como é possível crescer no ciclismo sem ceder às tentações de atalhos. A sua história é um lembrete de que, mesmo em tempos sombrios, a integridade pode - e deve - prevalecer.