Laurens ten Dam fala sobre o seu inicio de carreira e de como resistiu à tentação de seguir por caminhos duvidosos: "Ele disse-me: ‘Tens um dom de Deus. Nunca te dopes"

Ciclismo
terça-feira, 01 abril 2025 a 21:30
laurens ten dam giro 2019

Laurens ten Dam tornou-se ciclista profissional em 2004, num período conturbado para o ciclismo internacional. Quando ingressou na Rabobank, em 2008, o pelotão ainda se tentava reerguer após anos marcados por escândalos de doping - incluindo o célebre caso de Michael Rasmussen, que abalou a Volta a França de 2007. O ambiente era de desconfiança, e a reconstrução da credibilidade do desporto estava longe de concluída.

Numa recente entrevista ao podcast Clubhuis Team Lucas, ten Dam refletiu sobre a sua entrada no WorldTour durante essa fase crítica. Curiosamente, o antigo ciclista holandês não revela ressentimento face aos que, na altura, optaram por caminhos menos limpos.

“Nunca me senti frustrado com isso”, disse, referindo-se aos ciclistas que competiam sob o efeito de substâncias dopantes durante os seus primeiros anos no pelotão.

Princípios firmes e influências marcantes

O percurso de Ten Dam foi moldado tanto pelas suas convicções como pelas pessoas que o rodearam. Quando começou a sua carreira na Bankgiroloterij, em 2004, vinha de um passado modesto - com apenas duas vitórias como júnior - e não se considerava um talento geracional.

“Eu não era como o Thomas Dekker, que ganhava tudo. Admirei o Matthé Pronk, que era abertamente contra o doping. Ele dizia que queria poder olhar os filhos nos olhos e dizer que nunca prejudicou a saúde por tomar algo que não devia".

A influência de figuras como Pronk foi determinante para que Ten Dam seguisse um caminho íntegro. Mais tarde, na Unibet, trabalhou sob a orientação de Andre Mihailov, médico com um passado ligado à equipa TVM nos anos 90 — uma referência associada a práticas duvidosas. Ainda assim, Ten Dam destaca a clareza da mensagem que recebeu:

“Ele disse-me: ‘Tens um dom de Deus. Nunca te dopes’. Confessou que também tomou EPO, mas que isso só o fez andar um pouco mais depressa - nunca o suficiente para ganhar. Só lhe trouxe stress e problemas".

Progressão com base no mérito

A carreira de Ten Dam desenvolveu-se com consistência e honestidade. Começou com um salário de 22 mil euros como neo-profissional, duplicou ao ingressar na Unibet, e voltou a duplicar com a entrada no Rabobank — onde teve, finalmente, a oportunidade de correr a sua primeira Volta a França.

Essa transição coincidiu com a implementação de uma nova política interna na equipa neerlandesa:

“Foi quando entrou em vigor a política de tolerância zero. Por isso, safei-me bem. Estava rodeado de pessoas que me aconselharam corretamente".

Ao recordar antigos colegas, Ten Dam reconhece como o percurso de um ciclista pode ser moldado por pequenos momentos e decisões:

“O Theo desistiu ao fim de três anos. O Thomas envolveu-se com o Boogerd em Viena. Eu tive sorte por ter ao meu lado duas pessoas que me afastaram disso. Também foi uma questão de sorte".

O papel fundamental da família

Apesar das boas influências no pelotão, Ten Dam sublinha que o maior pilar de estabilidade veio de fora do desporto: a sua mulher, Thessa.

“Ela dizia-me: ‘Se eu descobrir alguma coisa, acabou-se’. Era professora do secundário. Dizia: ‘Podes conduzir o carro que quiseres, mas se o frigorífico estiver cheio de EPO, como é que vais dar a cara às pessoas?’”

Com uma carreira sólida, marcada pela transparência e pelo respeito, Laurens ten Dam tornou-se um exemplo de como é possível crescer no ciclismo sem ceder às tentações de atalhos. A sua história é um lembrete de que, mesmo em tempos sombrios, a integridade pode - e deve - prevalecer.

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