A desistência de
João Almeida alterou drasticamente os planos originais da
UAE Team Emirates - XRG para a
Volta a Itália 2026, mas um corredor que não vai ocupar a vaga deixada na geral é
Jay Vine.
Com Almeida fora antes da Grande Partenza e
Adam Yates agora a assumir, sozinho, a liderança da equipa na luta pela geral contra o enorme favorito à Maglia Rosa, Jonas Vingegaard, Vine surgiu rapidamente como candidato externo óbvio para um papel secundário de classificação na UAE.
O australiano combina capacidade a subir de elite com contrarrelógio de nível mundial e é há muito visto como um ciclista com ferramentas físicas para se tornar um verdadeiro candidato a Grandes Voltas.
Mas, apesar da oportunidade aberta na hierarquia da UAE, Vine deixou claro que não vai mudar a sua abordagem
em conversa com a Cycling News. “Não, isso não mudou realmente o meu papel”, afirmou quando questionado sobre a ausência de Almeida. “É desapontante não termos o João aqui porque penso que tinha uma boa hipótese de fazer uma grande corrida, mas abre mais oportunidades para a equipa. Não creio que vá mudar muito os nossos planos”.
Vine afasta-se das expectativas para a geral
As declarações são talvez o sinal mais claro de que as ambições de Vine no Giro assentam agora muito mais em oportunidades seletivas do que num projeto de três semanas para a geral.
Há anos que o australiano é apontado como possível futuro candidato a Grandes Voltas pela combinação entre escalada e força no contrarrelógio. Já venceu quatro etapas na Volta a Espanha e conquistou a prata atrás de Remco Evenepoel no contrarrelógio individual no Campeonato do Mundo de 2025, em Kigali. Mas a consistência em Grandes Voltas nunca se materializou plenamente.
Em sete provas de três semanas, Vine soma três abandonos e nunca terminou acima do 30º lugar na geral. Mesmo com a ausência de Almeida e a UAE a perder uma das suas maiores armas contra Vingegaard, o australiano parece muito mais focado em oportunidades específicas do que em perseguir um pódio em Roma. “Não creio que seja algo que vá fazer nesta corrida”, descartou, quando questionado sobre ambições para a geral.
Essa resposta diz muito também sobre a estrutura alargada da UAE para o Giro. Em vez de tentar substituir Almeida por outro corredor protegido para a classificação, a equipa parece agora totalmente comprometida com Yates como líder único, dando ao restante alinhamento liberdade tática ao longo das três semanas.
O próprio Vine sugeriu essa filosofia mais abrangente ao comentar a ausência de Almeida. “São mais oportunidades para a equipa”, explicou.
Com corredores como Jhonatan Narvaez, Marc Soler e o jovem talento Jan Christen, todos capazes de corrida agressiva, a UAE continua a apresentar um dos plantéis mais profundos e taticamente versáteis da prova, mesmo sem Almeida.
Outra época interrompida para Vine
Parte da decisão de Vine terá sido moldada por mais uma campanha aos solavancos. O corredor de 30 anos abriu 2026 de forma impressionante ao vencer a geral do
Tour Down Under e recuperar o título nacional australiano de contrarrelógio, antes de a época cair no caos com o agora célebre embate com um canguru, que lhe fraturou o escafoide.
O regresso na Volta à Catalunha terminou quase de imediato com nova queda, forçando ainda mais reabilitação antes do Giro. “Não há muitas horas, para além de toda a reabilitação, para poder passar muito tempo a desfrutar da vida”, admitiu Vine. “Mas é o que é”.
Ao mesmo tempo, as suas palavras revelam um ciclista cada vez mais pragmático perante contratempos e preparação. “É apenas focar nos próximos objetivos, de curto e longo prazo”, explicou.
Apesar de chegar à Bulgária com apenas 11 dias de competição nas pernas esta época, Vine soou notavelmente tranquilo antes da Grande Partenza. “Acho que estou bastante bem”, disse. “Estive muito tempo em casa, por isso sinto-me mentalmente fresco”.
Depois de meses de reabilitação e corridas interrompidas, o simples regresso à linha de partida de uma Grande Volta parece ter um significado real para o australiano. “Estou entusiasmado por voltar a prender um dorsal”, disse Vine à partida do Giro.
Adam Yates inicia o Giro como principal candidato da UAE à Maglia Rosa
A 10ª etapa surge agora como grande objetivo
Embora Vine não aponte à Maglia Rosa, deixou poucas dúvidas sobre a etapa que mais lhe interessa neste Giro.
O contrarrelógio plano de 42 quilómetros da 10ª etapa, entre Viareggio e Massa, deverá ser um dos testes decisivos da corrida e pode proporcionar um duelo direto entre Vine e Filippo Ganna. “Estou com muita vontade de fazer o CRI da 10ª etapa”, revelou. “Quarenta e dois quilómetros, completamente plano”.
O australiano também deixou claro o trabalho específico que foi feito para preparar essa etapa. “Trabalhei muito nisso, na posição também com a seleção australiana no verão, e experimentámos algumas coisas”, explicou.
Esse foco diz, talvez, tudo sobre o lugar em que Vine se vê atualmente na estrutura da UAE para o Giro. Em vez de substituir Almeida na luta pela geral, o australiano parece determinado a maximizar as oportunidades específicas que melhor se adequam às suas qualidades.
E, após uma primeira metade de época tão atribulada, a mentalidade de Vine à entrada na corrida parece agora notavelmente direta. “Fiz o que podia”, afirmou.
Em vez de forçar outro corredor a um papel de classificação após a desistência de Almeida, a UAE parece preparada para apoiar Yates a 100%, usando o resto do alinhamento de forma agressiva em fugas, etapas seletivas e momentos oportunistas, numa corrida que muitos antecipam ser de desgaste atrás de Vingegaard.