A dimensão da
próxima biopic de Hollywood sobre Lance Armstrong já a distingue como a reconstituição mais ambiciosa, até à data, da era mais controversa do ciclismo.
Com Austin Butler apontado para interpretar Armstrong e um pacote que desencadeou uma guerra de licitações entre grandes estúdios, o projeto está a ser posicionado como cinema de prestígio e não apenas um drama desportivo de nicho.
Esse enquadramento é relevante para entender a reação do antigo diretor desportivo de Armstrong,
Johan Bruyneel, que saúda o filme como uma rara oportunidade de responder a uma história que, acredita, tem sido contada sem a sua voz há mais de uma década.
Falando no TheMove, Bruyneel afirmou que, embora não tenha influência sobre o elenco ou as decisões criativas, o elemento mais importante para si é a perspetiva. “Tudo o que sei é que o filme será contado a partir de uma perspetiva diferente”, comunicou, acrescentando que o ângulo importa mais do que quem o vai interpretar.
Uma versão de Hollywood, não de ciclismo
O novo filme será realizado por Edward Berger, com argumento de Zach Baylin, e tem sido apresentado pelos envolvidos como uma exploração centrada nas personagens, e não uma reconstituição processual das investigações antidoping.
Para Bruyneel, essa distinção é crucial. Tem sido abertamente crítico de documentários e dramatizações anteriores sobre a era Armstrong, incluindo produções ligadas ao trabalho do jornalista David Walsh. “Não vi a maioria”, atirou, “mas sei que muitos factos e acontecimentos não foram contados. E, quando foram, não o foram da forma correta”.
Essa frustração, explicou, arrasta-se há anos, alimentada pelo que considera retratos incompletos ou unilaterais. O envolvimento do próprio Armstrong no novo filme é, na ótica de Bruyneel, o que o diferencia de tentativas anteriores.
“O bom, o mau e o vilão”
Apesar de receber bem o projeto, Bruyneel insistiu que o filme não tentará suavizar ou desculpar o que aconteceu na era US Postal. Descreveu-o como uma produção de grande escala que pretende mostrar o quadro completo, incluindo os aspetos mais incómodos.
“O Lance está envolvido no projeto, e será mesmo ‘o bom, o mau e o vilão’”, disse Bruyneel. “Nada será desculpado, e é assim que deve ser, mas com a necessária nuance”.
Esse ênfase na nuance está no cerne da reação de Bruyneel. Embora os vereditos desportivos sobre Armstrong estejam há muito consolidados, sustenta que a falta de equilíbrio na forma como os acontecimentos foram posteriormente apresentados moldou a perceção pública tanto quanto as infrações originais.
“Nunca nos deram essa oportunidade”
A crítica mais forte de Bruyneel não se dirige ao desfecho das investigações, mas ao processo que se seguiu. “Nunca fomos colocados numa posição em que pudéssemos contar o nosso lado da história”, afirmou, enquadrando a biopic como a primeira vez em que essa oportunidade existe de forma genuína.
Depois da estreia do filme, apelou, o julgamento deve ser deixado ao público. “A partir daí, as pessoas podem pensar o que quiserem”.
O ator de Hollywood Austin Butler vai interpretar Lance Armstrong na próxima biopic
Críticas ao relatório da USADA
Bruyneel reiterou também as suas objeções de longa data ao relatório da United States Anti-Doping Agency que sustentou a suspensão vitalícia de Armstrong, argumentando que foi redigido de uma forma, no seu entender, longe de objetiva.
“O relatório da USADA foi escrito como um romance ou uma peça jornalística sensacionalista”, disse. “Certamente não foi objetivo”. Acrescentou que as consequências para a sua própria reputação foram severas. “Fui retratado como o diabo, e sei que não sou”.
Aceitar a contestação
Bruyneel reconheceu que o filme será inevitavelmente recebido com hostilidade em alguns meios, sobretudo no pelotão, onde Armstrong continua amplamente persona non grata. “Há uma pequena minoria que continuará sempre a ver-me dessa forma”, acredita. “Lutei com isso durante algum tempo, mas já virei a página”.
Acrescentou que já espera críticos que desvalorizarão o filme independentemente do conteúdo, mas disse que isso já não o preocupa. O que importa, sublinhou, é a opinião de quem lhe é próximo. “Enquanto as pessoas à minha volta me valorizarem, fico tranquilo. Isso aplica-se também ao Lance”.
Resta saber se o filme irá, no fim de contas, reformular a memória do período mais controverso do ciclismo. O que já é evidente é que a própria escala do projeto criou uma plataforma que figuras centrais dessa era acreditam poder finalmente utilizar.