Giulio Pellizzari não fala como quem tenta forçar lugar numa hierarquia. As suas reflexões revelam antes um jovem candidato a Grandes Voltas a ser moldado de forma deliberada dentro do projeto alargado e de longo prazo da
Red Bull - BORA - Hansgrohe.
“No ano passado corri muitas vezes ao lado do Roglic e aprendi muitas coisas com ele”.
disse Pellizzari em entrevista ao Marca. “Para mim, é uma honra correr com campeões como eles. Estou muito feliz por estar nesta equipa e espero poder correr muitas mais vezes com o Primoz e o Remco”.
Esse ambiente de aprendizagem não é acidental.
Desde que a Red Bull remodelou a estrutura em torno de vencedores experientes de Grandes Voltas e talentos emergentes para a geral, o objetivo declarado tem sido combinar resultados imediatos com desenvolvimento a longo prazo. As palavras de Pellizzari encaixam na perfeição nesse modelo.
O Giro no centro de uma época construída ao detalhe
Rodeado por corredores que já venceram as maiores corridas do calendário, Pellizzari é claro quanto ao seu foco. “A
Volta a Itália é o meu principal objetivo, e também a minha corrida favorita”, apontou. “Teremos de ver como evolui a época, mas tenho a certeza de que estarei em boa forma, tal como o Jai”.
Esse enquadramento é relevante. A abordagem da Red Bull às Grandes Voltas assenta numa liderança específica por corrida, e não numa hierarquia única e totalizante. Com
Primoz Roglic direcionado para outros objetivos e
Remco Evenepoel no centro do projeto para a Volta a França, o Giro torna-se o foco natural para o próximo passo de Pellizzari.
Questionado diretamente sobre ambições de pódio, mantém um tom contido. “O pódio é um sonho”, assumiu, “mas temos de ver como estão as pernas. Três semanas são muito longas, e também é preciso sorte. Veremos”.
É ambição sem pretensões, moldada pelo realismo e não pela pressão.
Progresso sem atalhos
Pellizzari acredita que a forma está a evoluir positivamente, sustentada por um inverno sólido e preparação estruturada. “A forma é boa, porque fiz um bom estágio no Teide com a equipa”, afirmou. “Mas aqui também temos o Remco, que é muito forte e pode alcançar um resultado melhor”.
Com 22 anos, fala abertamente sobre áreas a melhorar, sobretudo contra o cronómetro. “Sinto-me melhor na bicicleta”, explicou. “Demos um passo em frente em alguns aspetos, mas a pensar no Giro, ainda preciso de evoluir nos contrarrelógios. Teremos mais oportunidades nas próximas corridas”.
Essa transparência espelha a abordagem mais ampla da Red Bull: progresso medido em épocas, não apressado numa só.
Uma segunda metade do ano mais seletiva
Ao contrário de 2025, Pellizzari não vai tentar o duplo Giro–Vuelta esta temporada. “Este ano não vou correr a Volta a Espanha”, confirmou. “A época passada foi muito dura, por isso este ano vou focar-me mais nas clássicas italianas no final da época: Giro dell’Emilia, Tre Valli Varesine e Lombardia”.
Espanha continuará no mapa, mas de forma seletiva. “Acho que vou fazer San Sebastián e a Volta a Burgos, porque são corridas de que gosto. Estarei em Espanha nesse período”.
O calendário reflete consolidação, não expansão.
Um horizonte longo moldado pelo presente
Para lá do Giro, Pellizzari não esconde a ambição de longo prazo. “Gostava de estar em grande nível na Volta a França, porque esse é o meu sonho”, disse. “Daqui a cinco anos, espero estar a lutar pelo pódio ou pela vitória”.
Para já, esse futuro constrói-se em silêncio. A correr ao lado de Roglic. A partilhar equipa com Evenepoel. A aprender numa estrutura desenhada para combinar experiência com potencial.
Pellizzari não reivindica lá ter chegado. Mas, no ambiente da Red Bull, o sonho da
Volta a Itália deixou de ser abstrato. Ganha forma pela proximidade aos melhores do pelotão e pela paciência de aprender com eles antes de exigir mais.