O empresário Adriano Quintanilha, antigo principal responsável pela estrutura da
W52-FC Porto, avançou com um recurso para o Tribunal da Relação do Porto após ter sido condenado, em primeira instância, a quatro anos e nove meses de prisão efetiva no âmbito da Operação Prova Limpa.
No documento entregue pela defesa, o ex-dirigente contesta de forma total a decisão do Tribunal de Penafiel e garante nunca ter participado num esquema de
doping dentro da equipa.
A condenação de Quintanilha marcou um dos momentos centrais do processo que abalou o ciclismo português, depois de as autoridades desmantelarem uma rede de utilização e administração de substâncias proibidas ligada à formação que dominou a Volta a Portugal durante vários anos.
Defesa fala em erro judicial e rejeita qualquer envolvimento
No recurso apresentado pelos advogados Mário Santos Paiva e Maria Amaral Jorge, a defesa é perentória quanto à inocência do empresário. “A condenação de Adriano Sousa [conhecido socialmente como Adriano “Quintanilha”] é, a todos os títulos, um colossal erro da justiça portuguesa”.
Os representantes legais sustentam que o antigo dirigente nunca teve qualquer papel na obtenção, financiamento ou conhecimento de práticas dopantes no seio da equipa. “Não teve conhecimento, participação e muito menos financiou qualquer esquema de práticas dopantes e de métodos proibidos no seio da equipa W52 - FC Porto”.
Segundo os advogados, a própria prova recolhida durante a investigação não sustentaria a tese acusatória. “Nenhuma interceção telefónica, nenhuma comunicação escrita, nenhum documento, nenhuma das quase 100 testemunhas e nenhum dos demais 25 arguidos sustentam uma versão contrária, nem ao de leve, antes pelo contrário”.
O pagamento de 2.430 euros no centro da polémica
Um dos elementos considerados decisivos pelo coletivo de juízes foi um pagamento de 2.430 euros relacionado com substâncias adquiridas para a equipa. A acusação entendeu que essa transferência demonstrava conhecimento direto de Quintanilha sobre o esquema.
O empresário rejeitou essa leitura e, em declarações escritas enviadas à
CNN Portugal, insiste que os próprios ciclistas o ilibaram ao ongo do processo.
“Os ciclistas contaram toda a verdade, como compravam as substâncias e o que faziam com elas, sempre referindo que eu nada sabia e que não estava minimamente envolvido”.
Quintanilha acrescenta ainda que a relevância atribuída a esse montante é desproporcionada face ao orçamento global da estrutura.
“O coletivo de juízes de Penafiel desvalorizou isto, concentrando-se apenas num pagamento de 2.430 euros, dentro de um orçamento da equipa que rondava 1,1 milhões de euros por ano. E desconsiderou também o facto de, quanto a esse pagamento, a nossa PJ ter apanhado, em escutas, o massagista da equipa a pedir aquele pagamento ao dr. Hugo Veloso, contabilista, ao que este respondeu: ‘Eu a eles [a mim e à restante gestão da Associação Calvário Várzea Clube de Ciclismo] não lhes chego a dizer o que é que é..”
Segundo a defesa, existiriam ainda escutas onde outros elementos da estrutura assumiam que não revelavam à administração o verdadeiro destino de determinados pagamentos.
Tribunal apontou liderança no esquema
Na sentença de primeira instância, os magistrados entenderam que Adriano Quintanilha desempenhava um papel nuclear no funcionamento da estrutura e nas decisões financeiras relacionadas com métodos proibidos.
O acórdão considerou que o empresário foi “um dos arguidos que engendrou o plano inicial do uso de substâncias e métodos proibidos”.
Os juízes acrescentaram que detinha o “poder de decisão final, nomeadamente no que concerne aos pagamentos dessas substâncias e métodos”.
Para o tribunal, o facto de ser presidente da associação responsável pela equipa agravava a sua responsabilidade, por lhe caber a proteção dos ciclistas e restantes elementos da formação.
Nuno Ribeiro também visado no recurso
Outro dos eixos centrais do recurso passa pelo ataque à credibilidade de
Nuno Ribeiro, antigo diretor desportivo da W52 - FC Porto, figura igualmente central no processo.
A defesa de Quintanilha entende que o antigo responsável técnico tentou apresentar-se como vítima para escapar a uma pena mais pesada.
“
As declarações do arguido Nuno Ribeiro foram pautadas por um constante recurso a uma retórica ad misericordiam, de se apresentar perante o Tribunal como alguém que era intimidado por Adriano Sousa a obter resultados a qualquer custo e que apenas estava para ser mandado embora da equipa por se ter insurgido contra as práticas dopantes, tudo com o objetivo não da descoberta da verdade, mas de não ser condenado em pena privativa da liberdade”.
Nuno Ribeiro já havia sido alvo de sanção disciplinar pesada por parte da Autoridade Antidopagem de Portugal, com suspensão de 25 anos da atividade.
Defesa relativiza impacto social do caso
No recurso, os advogados contestam ainda a forma como o tribunal avaliou a gravidade social do processo e os efeitos do doping na comunidade desportiva.
“O acórdão recorrido revela uma clara tendência para elevar esses efeitos a uma proporção quase cataclísmica”.
A defesa acrescenta que a ampla cobertura mediática não significa, por si só, existência de verdadeiro alarme social.
“Já que, se assim fosse sempre, qualquer fenómeno de histeria mediática significaria necessariamente a existência de alarme social-comunitário – o que bem se sabe não ser assim”.
Também quanto à igualdade competitiva, os advogados sustentam que não ficou demonstrado que apenas a W52-FC Porto recorresse a métodos proibidos.
“O tribunal (…) nunca deu como provado que os atletas das demais equipas contra as quais a W52 – FC Porto competia não utilizaram práticas dopantes para que se pudesse fazer essa avaliação da igualdade competitiva em concreto”.
Dois destinos opostos após o processo
Os relatórios sociais elaborados em 2024 traçaram retratos bem distintos dos dois principais protagonistas do caso.
Quintanilha surgia descrito como um empresário financeiramente estável, apoiado pela família e reconhecido em Felgueiras pelo sucesso empresarial no setor têxtil e comercial. Mantinha rendimentos elevados e continuava ligado à gestão de algumas empresas.
Já Nuno Ribeiro vivia uma realidade bastante diferente. Segundo o mesmo relatório, residia em Valongo com o pai idoso, trabalhava em campos agrícolas da família e recebia 776 euros mensais de subsídio de desemprego.
Relação do Porto terá última palavra
Com o recurso agora em análise, caberá ao Tribunal da Relação do Porto reavaliar a condenação e decidir se mantém, reduz ou revoga a pena aplicada ao antigo dirigente.
O desfecho poderá tornar-se um novo capítulo num dos maiores escândalos da história recente do ciclismo português, um caso que colocou sob suspeita resultados desportivos, títulos conquistados e a credibilidade de uma modalidade que durante anos viveu sob o domínio da W52 - FC Porto.
Foto: José Carmo/Global Imagens (arquivo)