Para
Stefan Küng, a diferença entre vencer e apenas marcar presença nas Clássicas da Primavera já não passa só pela forma. É estrutural. O suíço acredita que a elite do ciclismo evoluiu para algo muito mais difícil de quebrar, com as maiores figuras quase imunes às fragilidades que outrora definiam até os seus maiores campeões.
Em conversa com a Wieler Revue, Küng traçou um diagnóstico incisivo do pelotão moderno.
“Os melhores corredores já não têm pontos fracos. Penso sobretudo no Pogacar, mas também no
Jonas Vingegaard ou no
Isaac Del Toro”.
Não é apenas admiração pelo talento. É o reconhecimento da completude.
Da genialidade com falhas à quase perfeição
A referência de Küng é reveladora. Correu ao lado de
Thibaut Pinot na
Groupama - FDJ, um corredor capaz de vitórias de montanha arrebatadoras e de um Monumento na Il Lombardia, em 2018. Pinot foi um dos melhores trepadores puros da sua geração e subiu ao pódio da Volta a França em 2014.
Na Volta a França de 2014, Pinot perdeu o segundo lugar no longo contrarrelógio individual da 20ª etapa, resultado que cimentou uma perceção antiga: apesar do brilho a subir, podia ser exposto contra o tempo. Essa dualidade, força imensa com fraqueza visível, tornava-o cativante e imprevisível.
Küng vê esse arquétipo a desaparecer. “Costumava correr com o Thibaut Pinot. Tinha qualidades enormes, mas também pontos fracos”, explicou. “Os melhores corredores de hoje já não têm fraquezas”.
A implicação é clara. Onde Pinot podia voar na montanha e sofrer no contrarrelógio, os líderes de hoje fazem bem as duas coisas.
O molde do corredor completo
Veja-se
Tadej Pogacar. Nas últimas épocas, venceu a Volta a França, conquistou Monumentos nos paralelos como a Volta à Flandres, dominou a Il Lombardia e assinou contrarrelógios decisivos em Grandes Voltas. Mostrou-se competitivo em muros íngremes, longas ascensões alpinas, paralelo e contra o cronómetro.
O mesmo padrão aplica-se a Jonas Vingegaard. Antes visto sobretudo como trepador puro, Vingegaard destruiu o campo no contrarrelógio da Volta a França de 2023 em Combloux, batendo Pogacar por mais de um minuto e selando praticamente a vitória na geral. O contrarrelógio, a colocação e a resiliência ao vento lateral melhoraram muito face às primeiras épocas no WorldTour.
Mesmo o mais jovem nome citado por Küng, Isaac Del Toro, já demonstrou amplitude. Vencedor de etapa na Volta a Itália e segundo na geral em 2025, Del Toro somou triunfos em clássicas onduladas como a Milão–Turim e exibiu crescente força contra o tempo. O seu perfil abrange a dureza das Grandes Voltas e a explosividade das Clássicas antes de completar 23 anos.
“Sabem fazer contrarrelógio, sabem posicionar-se no pelotão, sabem rolar em ventos cruzados”, enalteceu Küng. “Claro que contam com uma equipa forte à volta, mas o leque de competências é muito amplo. É uma grande mudança face a há dez anos”.
Uma margem a encolher nas Clássicas
Para Küng, essa evolução tem consequências práticas.
O líder da Tudor Pro Cycling construiu carreira na consistência. Subiu ao pódio no Paris-Roubaix, conquistou títulos europeus de contrarrelógio e repetiu top-5 nas provas de um dia mais duras. Está quase sempre lá.
Mas numa era de superestrelas quase sem falhas, ser “quase” completo raramente chega.
Mesmo na Omloop Het Nieuwsblad, onde foi apanhado dentro do último quilómetro no ano passado, Küng admite que as probabilidades pesam contra si. “Em nove de cada dez vezes eles serão melhores do que eu, mas foco-me naquela vez em que acontece um deles não ganhar. Nas Clássicas nunca se sabe o que pode acontecer. É isso que torna estas corridas tão especiais”.
É realismo e desafio. “Já subi ao pódio em algumas corridas e em quase todas, a certa altura, fiz top-5. Se estás sempre lá, um dia cai para o teu lado. Um momento desses pode definir uma carreira. A probabilidade pode ser muito pequena contra Van der Poel e Pogacar, mas tens de continuar a acreditar”.
Küng inicia a 12ª época como profissional em 2026
O fim das falhas visíveis?
Se a era da genialidade ao estilo Pinot desapareceu de facto é discutível. Mesmo os campeões de hoje têm dias maus, azar ou decisões táticas falhadas. Mas o que Küng exprime é difícil de contrariar: a margem criada por uma fraqueza explorável encolheu drasticamente.
Os contrarrelógios já não deitam abaixo os trepadores de forma fiável. Os ventos cruzados já não expõem invariavelmente os especialistas da montanha. O paralelo já não elimina automaticamente os candidatos às Grandes Voltas.
Nesse sentido, as palavras de Küng falam menos de nostalgia e mais de adaptação. Vencer em 2026 não é só ser forte numa vertente. É ser forte em todas.
Para corredores como Küng, essa realidade não elimina a crença. Apenas redefine as probabilidades.
E nas Clássicas da Primavera, onde o caos ainda impera, por vezes uma hipótese em dez chega.