Paul Seixas, o prodígio de 19 anos com ascendência portuguesa que faz sonhar os franceses

Ciclismo
terça-feira, 17 março 2026 a 13:00
Paul Seixas
O domínio de Tadej Pogacar parecia consolidado no ciclismo mundial. No entanto, um jovem francês de apenas 19 anos começou recentemente a agitar esse cenário. Chama-se Paul Seixas e já há quem veja nele o talento capaz de reacender o sonho francês de voltar a conquistar a Volta a França, algo que não acontece desde 1985, quando Bernard Hinault triunfou pela última vez na corrida mais importante do ciclismo mundial. A revista Sábado levou a cabo uma reportagem para conhecer melhor Seixas, explicando-se também finalmente a sua ascendência portuguesa.
A imprensa internacional não tem poupado elogios ao jovem corredor. Recentemente, o portal desportivo The Athletic, atualmente integrado no jornal The New York Times, descreveu-o como a “A próxima superestrela do ciclismo”. A atenção mediática surge numa altura em que Seixas começa a acumular resultados de grande impacto no pelotão internacional.
No Campeonato da Europa de 2025, por exemplo, o francês conquistou a medalha de bronze na prova de estrada, terminando apenas atrás de Pogačar e do belga Remco Evenepoel.
tadej pogacar paul seixas remco evenepoel
O pódio final do Campeonato da Europa de 2025
Desde então, o potencial do jovem corredor, ao serviço da Decathlon CGA CGM, estrutura que deriva da histórica AG2R La Mondiale, tem continuado a confirmar-se. A 7 de março deste ano, na clássica italiana Strade Bianche, Seixas protagonizou uma exibição que voltou a colocar o seu nome nas manchetes. O francês terminou em segundo lugar, a exatamente um minuto de Pogacar. O dado ganha ainda mais relevo se tivermos em conta que o esloveno, vencedor da corrida por quatro vezes, precisou de estabelecer o recorde de velocidade da prova, já com duas décadas de história, para conseguir essa margem.
O resultado alimentou a ideia de que o atual domínio do esloveno nas corridas por etapas pode vir a encontrar um rival à altura. A comparação com grandes nomes da história do ciclismo surge inevitavelmente, até porque muitos já discutem a possibilidade de Pogačar um dia rivalizar com o legado de Eddy Merckx. Ainda assim, o surgimento de Seixas começa a introduzir um novo elemento na equação.
O francês já tinha dado outros sinais claros do seu talento. A 28 de fevereiro, na Faun-Ardèche Classic, venceu de forma categórica, com quase dois minutos de vantagem sobre o segundo classificado. Nesse dia, subiu uma ascensão de 6,9 quilómetros com 7,2% de inclinação em 16 minutos e 28 segundos, precisamente o mesmo tempo que Pogacar registara nessa subida durante os Europeus de 2025.
Seixas construiu a sua reputação nas categorias jovens, onde venceu várias provas no escalão júnior. Cresceu inicialmente em Lyon e mais tarde mudou-se para Anse, zona com estradas mais adequadas para treino. Em 2025, com apenas 18 anos, tornou-se o ciclista mais jovem de sempre a terminar uma corrida do circuito UCI WorldTour entre os dez primeiros, e logo numa das mais prestigiadas, o Critérium du Dauphiné.
Já em 2026, conquistou a primeira vitória como profissional na Volta ao Algarve, precisamente na mesma subida onde Pogacar alcançara o seu primeiro triunfo, a Fóia. Nessa edição da corrida portuguesa terminou no segundo lugar da classificação geral. No ano anterior já tinha vencido o Tour de l’Avenir e subido ao pódio dos Europeus de estrada ao lado de Pogacar e Evenepoel.
Há menos de meio ano, o antigo ciclista francês Thibaut Pinot comentava o fenómeno ao jornal L’Équipe: “O que o Paul está a fazer é algo excecional. Talvez seja ainda mais forte do que o Pogacar era com a sua idade”.
O próprio Seixas também não esconde ambição quando fala do futuro: “O objetivo não é substituir o Pogacar quando ele sair de cena, é conseguir batê-lo”.
Atualmente ligado a uma equipa patrocinada pela Decathlon e pela empresa de transporte marítimo CMA CGM até ao final de 2027, o jovem francês já desperta cobiça no mercado. Circulam rumores sobre propostas milionárias e sobre o interesse da UAE Team Emirates - XRG, que poderia tentar juntar Seixas ao próprio Pogacar. Ainda assim, a formação francesa acredita ter meios financeiros e projeto desportivo suficientes para manter o talento e construir uma equipa competitiva em torno dele, com o objetivo de devolver à França o triunfo no Tour.

A origem portuguesa

A possível ligação de Seixas a Portugal também tem despertado curiosidade. Diversos relatos na imprensa referem a existência de ascendência portuguesa na família paterna. O próprio ciclista abordou o tema numa entrevista à Rádio Raízes, meio de comunicação francófono.
Mais tarde, em 2024, explicou a situação numa conversa com a revista britânica Cyclist Magazine: “Há raízes portuguesas do lado do meu pai. O meu bisavô era de origem portuguesa. Não sabemos exatamente de onde veio, não há árvore genealógica que permita rastrear isto, mas estamos a tentar descobrir mais sobre o lado português da família. Porém, não falo português, de todo”.
Durante a sua participação na Volta ao Algarve deste ano, reforçou essa ideia em declarações em vídeo: “O pai do meu avô era provavelmente português”.

As características

Em termos de perfil, Seixas identifica claramente o tipo de corredor que pretende ser. “Fundamentalmente, sou um trepador”, explicou recentemente. “Estou a treinar para ser um todo-o-terreno neste momento. (...) O contrarrelógio e a montanha são onde me sinto melhor, portanto vai ser essencial continuar a trabalhar nestes campos”.
Fisicamente, mede 1,86 metros e pesa pouco mais de 60 quilos, valores semelhantes aos de corredores como Pogacar ou o português João Almeida, características ideais para enfrentar as grandes montanhas. Fora da bicicleta, descreve-se como alguém tranquilo. “Demasiado relaxado em alguns momentos”, admite, reconhecendo que por vezes comete erros quando tem pressa. “Não é da minha natureza, sou uma pessoa bastante sossegada e calma”.
Apesar da crescente atenção mediática e das especulações financeiras, o jovem mantém hábitos simples. Segundo o The New York Times, desloca-se num Volkswagen Tiguan cinzento usado.

O que vem a seguir

StradeBianche_PauLSeixas
Depois da Strade Bianche, as expectativas são enormes
Nos próximos meses, o calendário de Seixas inclui várias provas importantes. Entre elas estão a Volta ao País Basco (6 a 11 de abril), as clássicas belgas La Flèche Wallonne (22 de abril) e Liege-Bastogne-Liege (26 de abril), onde poderá voltar a medir forças com Pogacar.
O programa inclui ainda o Campeonato do Mundo em Montreal. Falta, porém, esclarecer qual será a primeira grande Volta de três semanas da sua carreira em 2026: o Tour, em julho, ou a Volta a Espanha, em agosto.
A história mostra que Pogacar, na estreia numa grande Volta em 2019, terminou em terceiro lugar na Vuelta com 21 anos. Resta agora saber até onde poderá chegar Paul Seixas quando chegar o seu momento.
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