Miguel Indurain avalia o ciclismo moderno com a perspetiva de quem dominou uma era e conhece a exigência da modalidade por dentro. O espanhol, antigo múltiplo vencedor da Volta a França, centra-se na forma atual de
Tadej Pogacar, vendo-o um passo à frente do resto do pelotão, e na pressão que cresce em torno de
Paul Seixas em França.
“Tem aquele extra em relação aos outros. O Pogacar está num momento brilhante e é preciso valorizar também a equipa que o rodeia. É muito difícil batê-lo”, afirmou Indurain numa
entrevista ao AS, sublinhando tanto o nível individual do esloveno como a importância do bloco que o ampara nas grandes corridas.
O pentacampeão do Tour detém-se também na pressão que recai sobre os jovens talentos. Sem citar nomes, alerta para o risco de inflacionar expectativas em corredores muito novos, sobretudo em países com tradição profunda como França. “Outros, com a idade dele, já tinham ido. Mas hoje em dia… em França estão muito entusiasmados e temos de ter cuidado, porque se ele for e não fizer nada ou abandonar pode ser um golpe muito duro. Acho que é preciso acalmar um pouco. O ciclismo é muito exigente para os corredores”, reflete.
Com o francês a terminar recentemente em segundo atrás de Pogacar na Liege-Bastogne-Liege - como já acontecera na Strade Bianche - fica patente um nível de classe mundial que muito poucos conseguem igualar. Há uma faísca que não se via há anos com um novo candidato a entrar na Volta a França, alguém que ainda nem disputou uma Grande Volta.
Indurain traça também um paralelismo entre gerações, deixando claro que cada era tem as suas chaves. “Cada um corre no tempo que lhe calha. Nós também renovámos o ciclismo com a nutrição, o treino, os guiadores… mas é verdade que agora tudo corre à base de dados e está muito controlado. As etapas são mais curtas, rápidas, explosivas, e eu preferia-as acima dos 200 quilómetros”, explica, insinuando alguma nostalgia pelas corridas de resistência.
A dureza do ciclismo
O navarro não esquece a dureza intrínseca da modalidade, física e mental. “É uma profissão dura e perigosa, mas eu gostava de competir, de andar de bicicleta. Tenho muito boas memórias, embora tenha saído um pouco gasto mental e fisicamente”, admite sobre o fim da carreira.
O percurso foi tão longo quanto exigente. Induráin recorda os seus números de forma direta: “Comecei aos 19 e nos últimos anos fazia quase 38 000 quilómetros. Não tive lesões e todos os anos foram intensos, sem pausas”, um testemunho da consistência que definiu a sua carreira.
Já retirado, mantém intacto o laço com a bicicleta. “Uma semana depois de me retirar já estava novamente na bicicleta, e só não vou no inverno. Mas assim que o tempo melhora um pouco, saio. Gosto e vou ao meu ritmo para desfrutar. Não contabilizo o que faço nem nada, levo apenas o cardiofrequencímetro e pronto. É verdade que às vezes me entusiasmo e, quando olho depois, penso que devia aliviar um bocado, mas estou bem. Feliz. Gosto muito da bicicleta”.