"Se o Vine ganhar a etapa a partir da fuga... pode custar a Vuelta a Almeida por segundos" Bruyneel e Martin alertam para potencial implosão da Emirates na Bola del Mundo
Chegou o momento da verdade na Volta a Espanha 2025. A 20ª etapa, com final no duríssimo topo da Bola del Mundo, vai decidir o duelo entre Jonas Vingegaard e João Almeida, separados por apenas 44 segundos. O português aposta num ataque derradeiro contra o dinamarquês, numa jornada que promete ser selvagem tanto dentro como fora da estrada.
Johan Bruyneel e Spencer Martin analisaram este dia decisivo no podcast The Move, de Lance Armstrong, destacando não só as características únicas da etapa como também os riscos externos, já que além dos protestos pró-palestinianos, também ativistas ambientais ameaçam perturbar a corrida.
19ª etapa: aparente tranquilidade, mas com detalhe perigoso
À superfície, a 19ª etapa pareceu ser um dia de rotina para os sprinters: ritmo baixo, pouco espetáculo e chegada em grupo. Mas o sprint intermédio em Salamanca pode revelar-se decisivo, já que Vingegaard conquistou quatro segundos de bonificação que podem custar caro a Almeida.
Spencer Martin foi incisivo: "Pensem nisto, é metade da diferença que o Almeida conquistou no contrarrelógio de ontem. Gastaram milhares e milhares de euros a trabalhar na posição dele no CRI, e depois devolvem metade desse ganho porque não prestaram atenção." E acrescentou: "Quando virem aquelas camisolas amarelas e o tipo vermelho colado à roda, estejam lá. O Almeida ou o Pidcock teriam vencido esse sprint".
Jonas Vingegaard ganhou quatro segundos de bónus no sprint intermédio
Bruyneel concordou, mas destacou o desfecho da etapa, vencida por Jasper Philipsen. "Foi incrível. A 1,3 quilómetros da meta não havia nenhum homem da Alpecin no top-40. De repente, aparecem Rickaert, Plankaert, Philipsen. Rickaert colocou-os na frente, Philipsen finalizou".
Sobre o sprint, o belga foi claro: "Foi lento até aos 200 metros finais, depois plano. Philipsen foi impressionante. Ele disse que não estava em grande forma, mas já tem três vitórias e pode ainda conquistar uma quarta em Madrid. Depois da queda na Volta a França, é um regresso fantástico".
Martin trouxe o contexto estatístico: "Tem agora 16 vitórias em etapas de grandes voltas, só Pogacar e Roglic têm mais entre os ciclistas em atividade".
20ª etapa: a brutalidade da Bola del Mundo
Todas as atenções viram-se agora para a Bola del Mundo, palco da última batalha. "É basicamente uma extensão da Navacerrada", explicou Bruyneel. "Depois da descida vira-se à direita e entram três quilómetros em cimento muito irregular, média de 12,5% e rampas de 18 a 20%. É como o Angliru, mas com piso pior. Super lento e exposto, o final vai ser brutal".
Bruyneel sublinhou que não se trata apenas de uma subida: "São cinco contagens, 4200 metros de desnível acumulado. O percurso passa duas vezes acima dos 2000 metros e o topo chega perto dos 2300. Essa altitude não é habitual na Vuelta e costuma provocar diferenças ainda maiores do que no Angliru".
Quanto às hipóteses de Almeida, foi direto: "Se quer vencer, precisa primeiro de ter boas pernas. Depois, vai precisar dos bónus de tempo, pode até ter de ganhar a etapa. É uma jornada tremenda, porque sobem Navacerrada pelo lado mais duro, depois Guadarrama e só então a Bola. Essa última parte vai ser interminável".
Martin destacou a dimensão tática: "A Emirates tem de controlar. Se a Visma não disputar a etapa, pode abrandar o ritmo e eliminar bonificações. Mas se a Emirates voltar a estar distraída, essas bonificações podem decidir tudo".
Na análise de favoritos, Bruyneel apostou sem hesitar: "A minha escolha é Jonas Vingegaard. Vai ficar com Almeida e batê-lo no último quilómetro." Martin, por seu lado, deu voto de confiança ao português: "Ele precisa da etapa e das bonificações, acho que consegue".
Outros nomes também foram lançados: Bruyneel destacou Tom Pidcock, lembrando o que mostrou no Alto del Morredero. Já Martin avançou Jay Vine como carta fora do baralho. E imaginou até um cenário curioso: "Se o Vine ganhar a etapa a partir da fuga, somar os pontos da montanha e conquistar a camisola das bolinhas, pode custar a Vuelta a Almeida por segundos. É quase cómico, mas não impossível".
Bruyneel alinhou: "É difícil de acreditar, mas pode acontecer. Esta corrida tem sido cheia de surpresas e isso mostra o quão imprevisível é o ciclismo".
Protestos e restrições fora da estrada
Se a dureza do percurso já promete espetáculo, fora da estrada a incerteza também é grande. Martin confirmou restrições extraordinárias: "Não haverá público no último quilómetro, não devido aos protestos recentes, mas a um protesto ambiental anterior. Só o pessoal acreditado terá acesso à zona final".
Bruyneel alertou ainda para riscos adicionais: "Há um movimento planeado tanto para hoje como para Madrid. Disseram que vão tentar chegar ao topo pelos campos e não pela estrada. É quase impossível controlar isso".
Com apenas dois dias para o final, a Volta a Espanha 2025 chega ao seu clímax. Vingegaard parte com 44 segundos de vantagem, Almeida com a ambição de virar a classificação. A Bola del Mundo, selvagem e imprevisível, decidirá quem será coroado em Madrid.
Miguel Marques é editor e redator do CiclismoAtual, onde cobre o ciclismo profissional internacional com forte foco em análise competitiva, estratégia de corrida e o calendário do UCI WorldTour. Desde que se juntou à plataforma em novembro de 2024, escreveu milhares de artigos, contribuindo com antevisões diárias das corridas, resumos pós-etapa, análises táticas e análises aprofundadas das equipas e ciclistas do pelotão profissional.
Tem mantido blogs ao vivo para as maiores corridas por etapas do ciclismo profissional, incluindo a Volta a Itália, a Volta a França e a Volta a Espanha, oferecendo cobertura em tempo real das etapas, atualizações contextuais e insights táticos ao longo de cada corrida. Além de suas reportagens digitais, tem assistido pessoalmente a eventos de ciclismo profissional, fortalecendo sua compreensão em primeira mão do panorama competitivo e organizacional do desporto.
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Miguel é licenciado em Ciência e Tecnologia Animal e está atualmente a concluir um mestrado em Engenharia Zootécnica. A sua formação académica em metodologia científica e análise crítica influencia uma abordagem estruturada e baseada em evidências ao jornalismo desportivo, com forte ênfase na verificação de fontes e precisão factual.
O seu envolvimento com o ciclismo começou em 2014, durante a vitória de Vincenzo Nibali no Tour de France, o que despertou um interesse sustentado e profundo pelo desporto. Desde então, tem acompanhado de perto a evolução das equipas, dos ciclistas e dos desenvolvimentos táticos nas competições do WorldTour e de nível de desenvolvimento, construindo uma experiência consistente na dinâmica do ciclismo profissional moderno.
Também pratica ciclismo recreativo, mantendo uma ligação pessoal direta com a disciplina que analisa profissionalmente.