Tadej Pogacar confirmou oficialmente a sua presença na Paris-Roubaix 2025, naquela que será uma das participações mais aguardadas do ano. O campeão do mundo e vencedor da Volta a França vai tornar-se o primeiro detentor do título da Grande Boucle a competir na clássica do Inferno do Norte desde Greg LeMond, em 1991.
Mas a pergunta impõe-se: valerá a pena o risco de enfrentar os temidos paralelos de Roubaix tão perto dos seus objetivos nas Grandes Voltas?
O anúncio da participação de Pogacar teve um impacto imediato no mundo do ciclismo. E, como seria de esperar, as opiniões dividem-se. Em entrevista ao Bici.Pro, Stefano Zanini — antigo vencedor de etapas em Grandes Voltas e atual diretor desportivo da Astana Qazaqstan Team — abordou os riscos e benefícios desta escolha arrojada do esloveno.
“Se é perigoso ou não, depende muito da forma como os ciclistas se comportam na bicicleta. Pessoalmente, não considero Roubaix mais perigosa do que outras corridas”, defende Zanini. “Hoje em dia, as quedas acontecem muitas vezes por causa dos separadores de trânsito, barreiras, zonas técnicas. Há secções em que os ciclistas deviam travar, mas não o fazem porque estão embebidos pela adrenalina do momento".
Para Zanini, o perigo é real - mas não exclusivo da Paris-Roubaix. As quedas fazem parte do desporto e podem surgir onde menos se espera, como relembra:
“Se estivermos sempre preocupados com o risco de queda, então nunca mais corremos. Há dois anos, o Pogacar caiu na Liège-Bastogne-Liège, algo que ninguém esperava, e isso acabou por lhe custar a Volta a França".
Mesmo Mauro Gianetti, responsável máximo da UAE Team Emirates - XRG, já admitiu reservas quanto às possíveis consequências de uma queda em Roubaix — e a sua eventual repercussão na preparação para a Volta a França.
“Compreendo que algumas equipas tenham de proteger os seus líderes, sobretudo se estiverem focadas nas Grandes Voltas”, comentou Zanini. “Cada estrutura tem de ponderar todos os fatores e tomar a melhor decisão possível. Eu próprio gostava de ter essas preocupações, mas neste momento, infelizmente, nós, na Astana, não temos esse tipo de problemas".
Zanini também sublinhou o fator imprevisibilidade. Para o italiano, muitas vezes, tudo se resume a uma questão de sorte e contexto:
“Já tive quedas a alta velocidade sem consequências e outras, em situações aparentemente inofensivas, que resultaram em fraturas. Há muitos fatores em jogo. Há ciclistas mais hábeis, outros menos rápidos a reagir. Tudo conta".
A Paris-Roubaix, com os seus setores de paralelos traiçoeiros, exige atenção constante — mas também alguma dose de fé:
“Os furos acontecem frequentemente quando se pedala atrás de outro ciclista, sem culpa própria. O posicionamento é crucial: o centro da estrada é geralmente mais seguro, sobretudo quando chove. Se se rolar junto às bermas, nas poças, nunca se sabe o que está por baixo".
Independentemente dos riscos, a presença de Tadej Pogacar em Roubaix promete ser um dos momentos mais simbólicos da época. Depois de vencer Strade Bianche com um ataque de 80 quilómetros — e de ter provado o seu valor tanto em clássicas como em Grandes Voltas —, o esloveno enfrenta agora o Monumento mais imprevisível e brutal do calendário.
E se há alguém capaz de vencer onde poucos se atrevem a tentar, é ele.