Tadej Pogacar prepara-se para escrever mais uma página única na história do ciclismo. O esloveno será o primeiro vencedor da Volta a França a alinhar na Paris-Roubaix desde Bradley Wiggins, em 2014, e o primeiro campeão em título a fazê-lo desde os tempos de Greg LeMond, em 1990-91. E sendo Pogacar quem é - e ostentando a camisola arco-íris - não vai certamente apenas para participar: quer vencer.
A ousadia do ciclista da UAE Team Emirates - XRG tem gerado reações um pouco por todo o mundo do ciclismo. No podcast neerlandês In Het Wiel, o jornalista e analista Thijs Zonneveld não esconde a admiração… nem o ceticismo.
“É incrível que um vencedor da Volta a França se atreva a correr a Paris-Roubaix. O facto de ele simplesmente ir, mesmo sabendo os riscos para a preparação do Tour, é de louvar. Pogacar é mesmo louco por fazer isto”, começou por dizer.
Apesar do entusiasmo inicial, Zonneveld é direto quando analisa as hipóteses reais do esloveno triunfar no Inferno do Norte:
“Pogacar não vai ganhar. Vai ter de bater Van der Poel, Van Aert, Pedersen e Ganna nos paralelos - e provavelmente vai ser batido ao sprint. Não o estou a ver ganhar Paris-Roubaix. Um pódio é possível, sim, mas ninguém vai deixá-lo fugir".
Embora tenha já experimentado os paralelos de Roubaix na Volta a França de 2022, quando atacou na quinta etapa ao lado de Jasper Stuyven, a clássica de domingo representa um desafio de outra dimensão - muito diferente dos terrenos onde normalmente brilha.
“No Tour, atacou com ciclistas da geral. No domingo, vai enfrentar os maiores especialistas do mundo em clássicas. Isso é completamente diferente".
Zonneveld admite compreender a preocupação da equipa da UAE com a participação do seu líder:
“Percebo bem a gestão da equipa. As hipóteses de vencer são muito reduzidas e o risco de uma queda grave é real. Um acidente pode comprometer toda a época".
Ainda assim, reconhece que Pogacar não se guia pela lógica convencional: “Ele quer vencer todas as grandes corridas, sem exceção. E, aparentemente, acredita que também pode ganhar em Roubaix".
Mas o analista volta a reforçar a improbabilidade de um triunfo:
“Tem de ser realista. Até um ciclista como o Stuyven, que nem sequer é favorito, tem mais hipóteses de vencer do que o Pogacar".
A presença de Pogacar na Paris-Roubaix é mais do que uma questão de estratégia. É uma declaração de ambição, de coragem e de um desejo quase obsessivo de deixar marca em todas as grandes provas do ciclismo. No próximo domingo, todos os olhos estarão postos no campeão do mundo - e no que poderá fazer no monumento mais imprevisível e brutal do calendário.
Num terreno onde a glória e o azar andam de mãos dadas, Pogacar tenta fazer o impossível… mais uma vez.