Delmino Pereira "As corridas têm de apaixonar o publico. Não há eventos de sucesso sem emoção"

Ciclismo
sábado, 24 janeiro 2026 a 11:22
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Delmino Pereira volta a ocupar um lugar que conhece como poucos. Depois de um percurso integralmente ligado ao ciclismo, primeiro dentro do pelotão e mais tarde nos bastidores da modalidade, o antigo dirigente regressa agora a uma função operacional, assumindo a responsabilidade técnica pelas provas promovidas pela Notícias Ilimitadas.
É um regresso que não tem nada de simbólico ou protocolar. Pelo contrário, traduz uma vontade clara de intervir, de pensar o ciclismo a partir da estrada, do público e da emoção, elementos que sempre considerou estruturais para a vitalidade da modalidade.

Vontade de trabalhar para fazer o ciclismo crescer

A passagem pela presidência da Federação Portuguesa de Ciclismo, entre 2012 e 2024, fechou um ciclo longo, com mais de quatro décadas de envolvimento contínuo no ciclismo. Antes disso, houve uma carreira como ciclista profissional e uma ligação direta a mais de uma dezena de edições da Volta a Portugal, sob a égide do Jornal de Notícias.
Esse passado confere-lhe não apenas autoridade, mas sobretudo memória, algo que considera essencial num tempo em que o ciclismo procura reinventar-se sem perder a sua identidade.
O novo desafio surge, nas suas palavras, como uma continuidade natural. Questionado sobre o que o levou a aceitar a direcção técnica das provas da Notícias Ilimitadas, Delmino Pereira é claro ao apontar a conjugação entre motivação pessoal e oportunidade estrutural. “É um desafio que junta vários pontos que me motivam, nomeadamente recriar o ciclismo e reinventar o espetáculo. O Jornal de Notícias está muito bem implantado, tem muita história e isso pode ser muito benéfico para inovar. Além disso, é um projecto que vai ao encontro de uma necessidade pessoal, de continuar ligado ao ciclismo, onde sinto que posso acrescentar valor”, disse ao O Jogo.
A noção de reinvenção não surge aqui desligada do passado, mas antes como uma leitura crítica da forma como as corridas são pensadas e apresentadas. Para Delmino Pereira, o ciclismo não pode viver apenas da sucessão de quilómetros ou da lógica estritamente competitiva. Precisa de narrativa, de conflito e de desfecho, elementos que aproximam a corrida do público e que lhe dão significado.
“Cada corrida tem de ter uma história, caso contrário não há nada para contar. As provas têm de ser desenhadas para que exista um princípio, um meio e um fim, algo que apaixone o público e que o faça querer saber o desfecho. Não há eventos de sucesso sem emoção. Temos de trabalhar essa imprevisibilidade, essa carga emocional. É isso que torna o ciclismo interessante.”
Essa visão implica um olhar diferente sobre o desenho dos percursos, sobre a forma como as etapas se encadeiam e sobre a própria relação entre organização, ciclistas e território. Para o novo responsável técnico, uma corrida não é apenas um evento desportivo, mas um produto cultural e social que se inscreve no espaço por onde passa. É nesse ponto que a proximidade com o público ganha centralidade, numa modalidade que continua a viver da estrada e do contacto direto.

Há algo no ciclismo que nunca mudará

Apesar das profundas mudanças nos hábitos de consumo, na comunicação social e na forma como o desporto é acompanhado, Delmino Pereira acredita que a essência do ciclismo permanece surpreendentemente intacta. “Estamos numa era diferente de há 40 anos, mas há algo que não mudou, as pessoas. A criança à beira da estrada e a família que vê a corrida a passar continuam iguais. Temos é de comunicar de outra forma, atrair jovens, tornar o ciclismo interessante, juntando mobilidade, turismo desportivo, sustentabilidade e espetáculo.”
Essa necessidade de comunicar de outra forma não implica, na sua perspetiva, descaracterizar a modalidade. Pelo contrário, passa por valorizar aquilo que o ciclismo tem de único, a sua natureza ambulante, a capacidade de entrar nas localidades, de as transformar por um dia no centro do acontecimento e de criar memórias duradouras. É aqui que surge um dos eixos estratégicos mais relevantes das provas da Notícias Ilimitadas, a coesão territorial.
Delmino Pereira sublinha que poucas modalidades conseguem desempenhar um papel tão ativo na valorização do território como o ciclismo de estrada. “Sem dúvida. Não há outra modalidade que consiga levar a excelência desportiva a todo o território. Nós conseguimos ir do litoral ao interior, de norte a sul, com mediatismo e emoção. O ciclismo tem muito a dar à coesão e valorização territorial.”
Nicolas Tivani venceu o GP Jornal de Noticias 2025 (Foto GPJN © Igor Martins)
Nicolas Tivani venceu o GP Jornal de Noticias 2025 (Foto GPJN © Igor Martins)

Nova prova no calendário nacional

Essa lógica está bem presente na reorganização do calendário das provas promovidas pelo grupo, onde cada corrida passa a ter uma identidade própria e um lugar específico na época. O surgimento do Grande Prémio TSF/JN é um exemplo dessa estratégia de complementaridade, pensada não como concorrência interna, mas como reforço global do projeto.
“O calendário já tinha provas consolidadas. O GP O Jogo em abril, em início de época, o GP Jornal de Notícias, que regressa a junho, mês de festas, romarias, dias longos, em que as pessoas estão na rua e o GP Douro Internacional passa para o fim de agosto, com três dias muito cirúrgicos. O Grande Prémio TSF/JN surge como uma corrida nova, mais a sul, com vocação internacional, para acolher equipas e seleções jovens. Queremos que seja uma corrida de oportunidade e revelações.”
A ideia de oportunidade surge aqui associada a um ciclismo mais aberto, capaz de lançar novos talentos e de criar contextos competitivos onde jovens ciclistas possam afirmar-se. Essa filosofia está intimamente ligada à aposta em corridas mais curtas e intensas, uma tendência que Delmino Pereira considera irreversível no ciclismo moderno.
“É essencial. Hoje todos os eventos são mais curtos e mais intensos. Vamos desenhar corridas que contem histórias todos os dias. As pessoas já não têm paciência para histórias demasiado longas. O ciclismo tem uma natureza ambulante como nenhuma outra modalidade. Entramos numa terra e no dia seguinte entramos noutra. Temos de aproveitar isso.”
Entre os símbolos históricos da modalidade, há um que o antigo dirigente gostaria de ver recuperado com maior protagonismo, a caravana publicitária. Longe de ser um detalhe secundário, é vista como parte integrante da identidade do ciclismo e da sua relação com o público. “Gostava. O ciclismo nasceu com a caravana publicitária. É algo que não pode ser copiado por nenhuma outra modalidade. O segredo está na estrada e na proximidade com as pessoas.”
Ao olhar para trás, para o seu longo mandato na Federação Portuguesa de Ciclismo, Delmino Pereira faz um balanço marcado pelo orgulho e pela consciência do caminho percorrido. Reconhece que nem todos os projetos se concretizam plenamente, mas destaca o crescimento sustentado da modalidade e o impacto humano desse trabalho. “Tenho muito orgulho. Vivi perto do crescimento de muitos atletas desde crianças. Tivemos sucesso desportivo, fomos campeões olímpicos, vice-campeões olímpicos, organizámos eventos de grande prestígio. Há sempre projetos incompletos, mas saí com satisfação e orgulho na equipa e no trabalho feito.”

"Temos Campeões"

Esse crescimento reflete-se também na qualidade dos ciclistas portugueses que hoje competem ao mais alto nível internacional, um fator que, na sua opinião, permite encarar o futuro com confiança. “Permite. Muitos países com grande tradição no ciclismo gostariam de ter campeões como nós temos. Falo do João Almeida, Rui Oliveira, Iuri Leitão, Maria Martins e muitos outros. Os campeões asseguram o prestígio das modalidades e Portugal tem campeões e futuro.”
No entanto, quando o foco se desloca para o ciclismo profissional nacional, o diagnóstico é claro, a prioridade passa pela consolidação estrutural. Não basta formar talento, é necessário criar um ecossistema que permita aos ciclistas desenvolverem uma carreira sólida em Portugal, com provas consistentes, visibilidade e investimento sustentado.
“É absolutamente necessário consolidá-lo. A comunidade precisa de ser tratada como profissional e a formação tem de sentir que existe uma carreira nacional sólida. Nas provas que vamos organizar queremos dar oportunidade e estimular o investimento dos patrocinadores.”
É nesse equilíbrio entre tradição e inovação, emoção e estrutura, estrada e território, que Delmino Pereira pretende atuar no seu novo papel. Um regresso que não olha para o passado com nostalgia, mas que o usa como base para pensar um ciclismo mais próximo, mais intenso e, acima de tudo, mais vivo.
Foto: Lusa
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