“Honestamente, não sei bem o que dizer”, confessou ao
cyclingnews junto do autocarro da
Red Bull - Bora - Hansgrohe, em Roubaix, já banhado mas ainda visivelmente abalado.
Até aí, tudo encaixava. Depois de uma campanha de Clássicas complicada, o neozelandês acertava a forma no momento certo. Entrou no movimento decisivo de oito homens no Pont Gibus, o grupo que moldaria a corrida, e parecia à vontade no empedrado, a flutuar enquanto outros lutavam pela sobrevivência. Um pódio em Roubaix deixara de ser um sonho distante. Estava a ganhar forma.
Um furo a 78 quilómetros do final forçou uma troca de bicicleta atabalhoada. Pithie conseguiu recuperar, ligando com o colega Jordi Meeus e, por momentos, até com o eventual vencedor Wout van Aert.
Mas a corrida começava a escapar. “Foi aí que tudo começou a descarrilar”, disse. “A lente de contacto caiu, caí em Mons-en-Pévèle, voltei a cair… foi um bocado caótico”.
O momento que verdadeiramente desfez a sua corrida surgiu no setor 12, com pouco mais de 50 quilómetros por cumprir. Uma lente de contacto voou, um pormenor pequeno com consequências enormes naquele terreno.
“Às vezes, com o vento, quando olhas para trás, ela simplesmente sai”, explicou Pithie. “Só me tinha acontecido uma vez, mas é irritante porque de um lado a visão está nítida e do outro fica turva”.
“Por isso, sim, obviamente não estava a escolher as melhores linhas. Deve ter tido influência [na queda]”.
O resto acabou por ser inevitável. Em Mons-en-Pévèle, um dos setores-chave da corrida, Pithie caiu com violência ao contornar uma esquerda, na cauda de um grupo perseguidor liderado por Mathieu van der Poel, que puxava na caça a Van Aert e Tadej Pogacar, adiantados na estrada.
“Ainda me sentia bem nesse momento. Estava apenas na roda desse grupo, a esperar que o Van der Poel fizesse o trabalho para nos trazer de volta. Ainda tinha esperança de discutir, mas sim, acabou-se o jogo”.
O caos não terminou aí. No rescaldo, Pithie envolveu-se noutro incidente, desta vez com um espetador.
“Bati num espetador ao sair de uma curva. Quer dizer, o espetador estava bastante perto. Íamos muito depressa e, sim, entrei nele em cheio. Estava um bocadinho demasiado dentro da curva, para lá da berma”.
“Vamos tão depressa que acontece. Espero mesmo que esteja bem, porque, para ser sincero, não soava nada bem no chão enquanto eu tentava levantar-me e seguir”.
Nessa altura, qualquer ambição de um grande resultado já tinha desaparecido. Ainda assim, Pithie insistiu, entrou no velódromo de Roubaix e acabaria por cruzar a meta no 26º lugar.
Um resultado que pouco espelha o que levava nas pernas. “É desapontante, mas é o que é, isto é ciclismo. Esta corrida é louca. Acontece tanta coisa. É preciso um bocadinho de sorte”, resumiu.
A frustração era evidente, mas também a fome. “Voltarei para o ano. Continuo a adorar esta corrida. No ano passado nem cheguei ao empedrado por causa da queda, por isso, sim, isto só vai alimentar o fogo para o próximo ano”.