Muito antes de
Afonso Eulálio vestir a camisola rosa da
Volta a Itália, já António Amorim tinha percebido que ali existia matéria-prima diferente. O atual massagista da EF Education-Easy Post foi quem descobriu o jovem figueirense através da Internet e acabou por convencê-lo a trocar o BTT pela estrada, numa aposta que hoje ganha outra dimensão com o português na liderança do Giro.
"Não fui eu que fiz dele ciclista", faz questão de esclarecer António Amorim, antes de recordar como tudo começou, ainda no final de 2018, quando orientava a equipa de juniores do Sport Ciclismo São João de Vêr e procurava reforçar o plantel para a nova temporada.
Sem grandes referências disponíveis, decidiu procurar jovens talentos nas provas nacionais de BTT. "Andei a fazer uma pesquisa na Internet e, como o BTT nos deu muitos bons ciclistas, eu fui vendo quem é que fazia os melhores resultados nas provas de BTT a nível nacional. [...] O Afonso aparecia-me sempre bem colocado, estava sempre no ranking dos melhores",
contou à agência Lusa.
Depois dessa pesquisa, Amorim entrou em contacto com Eulálio através das redes sociais. A resposta foi imediata. "Mostrou-se logo recetivo a isso. Agradou-lhe o meu contacto e a oportunidade de fazer ciclismo. Ele não tinha ligação nenhuma à estrada, não conhecia ninguém, praticamente", recordou.
Quando chegou à estrada, o atual corredor da Bahrain Victorious partia praticamente do zero. António Amorim explica que Eulálio desconhecia por completo muitos dos aspetos básicos do ciclismo de estrada e teve de aprender rapidamente tudo o que envolve correr em pelotão. "Não tinha muita noção do que era ciclismo de estrada, nenhuma mesmo", contou o antigo treinador, enumerando depois algumas das dificuldades iniciais: "vir ao carro buscar um bidão, abrigar-se do vento, andar em pelotão".
A adaptação não foi imediata e até começou com uma queda logo nas primeiras corridas da época. "Ele teve dificuldade, caiu logo na Volta a Loulé (
refere-se à Volta ao Concelho de Loulé de Juniores), que se não é a primeira, é a segunda [corrida da época]. E eu pensei, "pronto, se calhar, já vou perder ali o Afonso durante uns tempos, pode ganhar um trauma, receio. Mas não, ele era duro, mostrou dureza e estava logo pronto para a próxima", lembrou.
Nessa altura, Eulálio ainda dividia a estrada com o BTT. O acordo estabelecido permitia-lhe continuar a competir nas principais provas de bicicleta de montanha, embora a prioridade já fosse claramente a estrada. "Seria ali uma 70, 80% de estrada, foi um bom negócio", recorda Amorim.
Os resultados começaram a surgir rapidamente e o entusiasmo também aumentou. "Começou a ter bons resultados" e venceu duas corridas logo nessa fase inicial. Para o antigo treinador, os sinais eram evidentes. "Viu-se logo ali qualidade e ele também se entusiasmou", afirmou, acrescentando que o próprio corredor percebeu cedo que a estrada lhe poderia abrir portas para uma carreira profissional.
O que mais impressionava António Amorim era a rapidez com que Eulálio absorvia informação e a vontade constante de evoluir. "Aprendia muito rápido e era muito curioso", descreveu. "Perguntava muito sobre os treinos e o que é que devia fazer".
Segundo Amorim, essa urgência em aprender tinha uma explicação clara: Eulálio sabia que tinha começado mais tarde do que a maioria dos ciclistas. "Queria aprender muito rápido, porque sabia que estava contra o tempo. Praticamente é quase impossível, é muito difícil começar no segundo ano [de júnior] e depois vir a dar o ciclista que ele está a ser. Pode haver um ou outro, mas é muito difícil. Todos eles começam o mais tarde em cadete e ele foi no segundo ano", explicou.
As memórias desses primeiros tempos continuam vivas e algumas arrancam até sorrisos ao antigo treinador. "Quando começou na estrada, comia muito. Estava sempre com fome, o que é próprio também da idade. Eu dizia "olha que tu sobes bem, vê lá se comes menos, estás um bocadinho fortezinho"", brincou.
Embora reconhecesse desde cedo capacidade para a montanha, António Amorim admite que nunca imaginou ver o antigo pupilo, que representou profissionalmente a ABTF BEtão-Feirense e a Glassdrive Q8-Anicolor em Portugal, a liderar uma grande Volta. "Vi logo qualidade nele, isso vi. Mas pensar que estaria a liderar a Volta a Itália? Isso foi agora mais com o tempo, quem está atento à carreira dele, que tem sido em crescimento, em progressão... Agora, em júnior, claro que não", confessou.
Ainda assim, acredita que o português pode terminar esta edição do Giro entre os melhores. "E ele também é irreverente. [...] E se tiver um bocado de força, ele tenta ir ganhar algum tempo. Ele nunca abaixa os braços. Ele é muito forte mentalmente. É isso que também apreciei nele quando o treinei. Não se deixa intimidar, o que é bom", concluiu António Amorim, convicto de que Eulálio ainda pode surpreender muita gente nas estradas italianas.
Independentemente do que acontecer no contrarrelógio da 10ª etapa, Afonso Eulálio já fez história, com 5 dias de rosa, 3 top 10 em etapas e o respeito de todo o pelotão. Vai com tudo!