Arvid De Kleijn já deveria estar mergulhado na época nesta altura. Em vez disso, o sprinter da
Tudor Pro Cycling Team chega a meio de maio ainda à espera do primeiro dia de competição de 2026, após um início de ano marcado por turbulência familiar, luto e uma agressão chocante enquanto treinava.
O holandês de 32 anos não alinha desde a Volta a Langkawi de 2025, onde terminou a época passada com duas vitórias em etapa. Um regresso na Volta a Itália chegou a estar em cima da mesa, mas a ausência de De Kleijn tem agora uma explicação bem mais pessoal do que forma, escolha da equipa ou condição física.
Em entrevista ao De Telegraaf, De Kleijn detalhou uma sequência dura de acontecimentos fora do pelotão. A sua filha, Fye, nasceu a 6 de janeiro, o pai morreu no mês seguinte após doença terminal, e a preparação sofreu novo abalo quando foi agredido por um grupo de adolescentes perto do Paaspop, em Schijndel.
Para um corredor cuja função assenta em timing, ritmo e certezas a alta velocidade, 2026 começou com tudo menos controlo.
Paternidade, luto e uma época em suspenso
Arvid De Kleijn no UAE Tour
De Kleijn estava previsto integrar um estágio da Tudor no início do ano, mas o plano mudou quase de imediato após o nascimento da filha. A mulher, Celine, enfrentou dificuldades físicas nos dias seguintes ao parto, deixando a De Kleijn a responsabilidade dos cuidados em casa.
“A Celine não se conseguiu levantar da cama durante muito tempo, por isso recaiu sobretudo sobre mim”, detalhou. A Tudor compreendeu a situação, e De Kleijn ficou em casa em vez de viajar. “Acabei por não ir, porque tive de cuidar das duas meninas durante dez dias”.
Em simultâneo, a saúde do pai piorava. De Kleijn disse que não era expectável que o pai chegasse ao Natal de 2025, mas resistiu o suficiente para conhecer a neta. “Na verdade, ele não deveria ter chegado ao Natal de 2025, mas foi aguentando”, afirmou De Kleijn. “Isso é bonito. O meu pai foi sempre um homem grande e forte”.
O declínio acelerou em fevereiro. De Kleijn não disfarçou a dor desse período final, mas descreveu também uma despedida que trouxe alguma paz à família. “Nessa fase final, não queremos que tudo se arraste, porque o processo de sofrimento torna-se longo e intenso”, descreveu. “A forma como aconteceu trouxe paz a toda a família e, em conjunto, recordamos uma despedida bonita”.
Isso já bastaria para explicar um arranque de época adiado. Mas a preparação atribulada de De Kleijn não ficou por aqui.
“Fiquei inconsciente e parti o nariz”
Enquanto treinava perto do Paaspop, no Brabante, De Kleijn cruzou-se com um grupo de cerca de dez adolescentes. Segundo o corredor, o grupo usou a doença que vitimou o pai como insulto. “Estava a treinar e nem tinha pensado que era o Paaspop”, contou. “Passei por um grupo de dez rapazes com 15, 16, 17 anos. Insultaram-me usando a doença de que o meu pai morreu”.
De Kleijn deu a volta para os confrontar com o que tinham dito. Pelo seu relato, a troca de palavras tornou-se rapidamente incontrolável. “Tinham bebido e talvez consumido mais alguma coisa, por isso não havia conversa possível”, disse. “Quando decidi arrancar, começaram a tocar-me. Um deles estava atrás de mim, à direita, numa fatbike e, de repente, desferiu um golpe”.
O impacto deixou-o inconsciente. “Fiquei inconsciente e parti o nariz”, contou De Kleijn.
Nove dos dez rapazes foram mais tarde identificados, segundo De Kleijn, embora o autor do soco não estivesse entre eles. O caso continua em investigação. “Infelizmente, o processo ainda vai demorar, mas fico satisfeito por não passarem impunes”, afirmou.
A frustração de De Kleijn não se limitou à lesão física. Depois de tudo o que a família viveu, a natureza dos insultos doeu ainda mais. “É sobretudo triste ver que esta geração já não tem respeito pelos semelhantes”, lamentou.
De Kleijn finalmente pronto para voltar a competir
O resultado é uma das ausências mais invulgares do pelotão neste início de 2026. De Kleijn não esteve apenas à espera que a condição regressasse. Esteve a lidar com um recém-nascido em casa, a morte do pai e as consequências de um episódio violento que o deixou com o nariz partido.
Agora, finalmente, o sprinter da Tudor prepara o regresso. A sua época deverá arrancar na Rund um Koln, no domingo, oferecendo-lhe a primeira oportunidade de passar da explicação à competição. “Estou com muita vontade de voltar a correr”, perspetivou.
Para De Kleijn, a Rund um Koln significa mais do que a estreia da época. Após meses marcados por acontecimentos fora do seu controlo, oferece o regresso à parte da vida que enfim volta a parecer familiar: a corrida.