Giulio Ciccone já vestiu de amarelo na Volta a França, venceu grandes etapas de montanha e construiu a reputação de um dos corredores mais explosivos de Itália nas Grandes Voltas, mas envergar a Maglia Rosa na
Volta a Itália teve um significado diferente.
Depois de terminar em terceiro atrás de Jhonatan Narvaez na
4ª etapa, Ciccone assumiu a liderança geral da Volta a Itália de 2026, vestindo de rosa após um dia frenético entre Catanzaro e Cosenza.
Para a
Lidl-Trek, foi uma grande recompensa numa etapa moldada pela pressão de longo alcance da Movistar, pela queda de Thomas Silva do comando e por uma batalha final por segundos de bonificação que baralhou por completo o topo da classificação geral. Para Ciccone, porém, a emoção foi além da tabela.
Em declarações à Cycling Pro Net após a meta, o italiano deixou claro quanto a camisola lhe significa. “De certeza que é uma das melhores camisolas do mundo”, afirmou. “Foi realmente um momento especial, mas tenho de dizer que a camisola rosa é também algo especial, sobretudo para mim, porque comecei a andar de bicicleta com este sonho. Hoje posso dizer que realizei o sonho que tinha em miúdo”.
Ciccone presta homenagem a Derek Gee após missão de resgate da Lidl-Trek
A passagem de Ciccone para rosa não aconteceu sem trabalho de equipa e sacrifício internos.
Derek Gee, já envolvido na queda da 2ª etapa e depois vítima de um problema mecânico na 4ª etapa, teve ainda assim um papel chave a ajudar a Lidl-Trek a proteger a posição do italiano no final.
Ciccone fez questão de sublinhar isso. “Tenho mesmo de agradecer a este rapaz. É um herói”, exultou sobre Gee. “Também caiu há poucos dias. Hoje furou e o Matteo parou para esperar pelo grupo dele, e depois, no final, estiveram lá os dois para me ajudar”.
O gesto significou muito para Ciccone porque o próprio Gee mantém ambições para a geral. Longe de tratar o trabalho do canadiano como mera rotina de equipa, Ciccone enquadrou-o como algo que quer retribuir mais adiante na corrida.
“O Derek também tem ambição para a CG e esteve na frente para me ajudar. Acho que isto diz muito”, elogiou Ciccone. “Espero poder devolver-lhe este favor. Acredito mesmo que ele pode fazer um Giro superlativo. Todos o conhecemos. É como um diesel. Precisa de tempo, mas de certeza que estará em grande nível na próxima semana ou nas próximas etapas. Vou fazer o máximo para o ajudar”.
A rosa tem um significado diferente para Ciccone
Ciccone foi também convidado a comparar a Maglia Rosa com a camisola amarela que já vestiu na Volta a França. A resposta sublinhou a diferença entre um momento inesperado no início da carreira e uma camisola com que sempre sonhou. “Quando tive a amarela, era muito jovem, por isso não esperava vestir a camisola”, explicou.
A rosa, pelo contrário, tocou algo mais pessoal. Ciccone há muito carrega o estatuto de corredor capaz de incendiar o Giro, mas este foi o dia em que chegou enfim ao centro simbólico da corrida.
A etapa esteve longe de ser simples. A Movistar fracionou a corrida na subida a Cozzo Tunno, deixando para trás Silva, Paul Magnier, Jonathan Milan, Dylan Groenewegen e uma longa lista de sprinters. Egan Bernal esteve descolado alguns quilómetros antes de ser reconduzido por Ben Turner, enquanto Jan Christen somou seis segundos de bonificação no quilómetro Red Bull e depois atacou dentro dos últimos 2 quilómetros.
O movimento de Christen acabou neutralizado antes do sprint em que Narvaez venceu, mas o terceiro lugar de Ciccone na meta bastou para lhe dar a Maglia Rosa. Após três dias caóticos na Bulgária e uma primeira etapa agressiva em estradas italianas, o Giro tem agora um líder italiano.
Para Ciccone, foi mais do que um acerto tático ou uma atualização da geral. Foi um sonho de infância concretizado em rosa.