Às portas de alinhar pela quarta vez na
Volta a Itália, Nélson Oliveira falou com ambição sobre o papel da
Movistar Team na corrida italiana, apontando claramente ao pódio de
Enric Mas em Roma.
O corredor natural de Anadia será um dos 3 portugueses em prova, a par de António Morgado e Afonso Eulálio, e aos 37 anos continua a afirmar-se como uma das figuras mais consistentes do pelotão, somando experiência e regularidade numa fase da carreira em que muitos já perderam protagonismo. Num ciclismo cada vez mais dominado por números e tecnologia, Oliveira mantém-se competitivo e assume um papel fundamental no apoio aos líderes.
A estrutura espanhola apresenta-se com um bloco forte para esta edição, com profundidade para todos os terrenos, contrariando a estratégia dos últimos anos que privilegiava a aposta na Volta a França e na Volta a Espanha. Além da aposta na geral com Enric Mas, há também espaço para discutir etapas, quer em chegadas rápidas quer em fugas, com nomes como Orluis Aular, Einer Rubio ou Javier Romo.
“Temos o Enric Mas para a geral e o Orluis Aular para as chegadas rápidas, porque passa bem a média montanha. Também vamos tentar ganhar desde a fuga com o Javier Romo e o Einer Rubio quando chegar a montanha. Salvo o contrarrelógio, que não o favorece, é um percurso interessante para o Enric. Teve azares no início da época e pouco correu desde a Volta a França, mas disse-me que treinou bem em altitude e sente-se bem. O objetivo é o pódio”,
definiu o português em entrevista ao Top Cycling.
A equipa conta ainda com Ivan Cortina, Lorenzo Milesi e Juan Pedro López, sob orientação de Max Sciandri, Matthew White e Juan Carlos Escámez, numa estrutura que combina experiência e juventude para enfrentar três semanas exigentes. Recordamos que a última vitória da Movistar no Giro data de 2024, por intermédio de Pelayo Sánchez. Em 2026, a única estrutura espanhola do worldtour soma 7 vitórias, 17 pódios e 59 top 10.
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A ausência de última de nomes como João Almeida ou Richard Carapaz poderá abrir espaço a surpresas na classificação geral, algo que o próprio Oliveira não descarta, lembrando exemplos recentes.
“Há sempre quem quebre e quem surpreenda na terceira semana, basta recordar o exemplo do Simon Yates, na passada edição. O Jonas Vingegaard é o favorito, mas temos que ter em conta o Adam Yates e o Jai Hindley, que dá mais garantias que o Giulio Pellizzari em Grandes Voltas”.
Dentro da estratégia coletiva, o português mantém o papel de sempre: trabalho em prol da equipa e apoio direto aos líderes nos momentos decisivos.
“Ajudar a equipa no que me propuserem, estar com Enric e nas chegadas em pelotão ou em grupos reduzidos também ajudar o Orluis a colocar-se. Na alta montanha serei dos primeiros a entrar ao serviço porque depois estão o Romo, o Juanpe e o Einer que sobem bem”.
Especialista em contrarrelógio, Oliveira aponta também à decisiva 10ª jornada, um esforço individual de 40km, como uma oportunidade pessoal, apesar das características do percurso.
Oliveira poderá surpreender Ganna no CRI de 40km? @Sirotti
“Preferia que fosse menos plano, mas sempre que há contrarrelógio aponto a essa etapa. Este ano fizemos alguns ajustes na bicicleta e no fato de contrarrelógio, mas mantemos os mesmos parceiros e o grande salto tecnológico foi de 2024 para 2025, quando a Abus desenvolveu um novo modelo de capacete. Melhoramos em eficácia aerodinâmica e ganhamos quase 1 seg/km, mas depende sempre das pernas. Este ano ainda não fui ao túnel de vento, mas o Cian Ujtedebroeks tem ido bastante”.
Apesar de um início de época condicionado por uma fratura na clavícula, o português já mostrou bons sinais, incluindo um pódio no contrarrelógio do Gran Camiño, batido apenas por Rafael Reis e Julius Johansen, confirmando que "está aí para as curvas". Além deste resultado, foi também 11º na geral da corrida galega, um resultado de realçar dadas as dificuldades montanhosas do percurso.
O Giro representa também um marco na carreira de Oliveira, que se aproxima de um registo histórico de participações em Grandes Voltas, se concluir, iguala o registo do polaco Sylwester Szmyd, tornando-se o 2º ciclista da história a começar e terminar 23 grandes voltas. Pode também almejar o recorde de mais participações entre os ciclistas no ativo - Wout Poels, Mikel Landa e Domenico Pozzovivo lideram essa estatística com 25 - Ainda assim, o foco mantém-se na conclusão da prova.
“Espero chegar a Roma. Não tenho o objetivo de igualar o recorde, mas sim de atingir o final da corrida. Este tema às vezes surge em conversas na equipa, sobretudo através dos mais novos que perguntam ‘quantas Voltas fizeste’ e quando respondo ficam surpreendidos. O próprio Aular, com quem partilho quarto na Bulgária, ainda há pouco me perguntou”.
A memória da estreia na Volta a Espanha 2011 continua viva, numa altura em que ainda dava os primeiros passos no pelotão internacional.
“Tinha lá o Tiago Machado, o Sérgio Paulinho e lembro-me que entrei numa fuga e sofri muito. A fuga chegou e ganhou o Daniele Bennati; eu não me alimentei como devia e paguei a inexperiência. Quando ia em sofrimento, com a fuga mesmo à frente, mas sem pernas para reentrar, veio ao pé de mim o José Azevedo e disse ‘vais ser um grande ciclista’ e aquelas palavras naquele momento foram importantes”.
As palavras vindas de um melhores ciclistas portugueses de sempre e atual diretor desportivo da Efapel Cycling foram profecia e
Nelson Oliveira tornou-se uma vozes mais respeitadas do pelotão internacional. Vai com tudo para mais uma, Nelson!