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Movistar Team passou grande parte da
4ª etapa da Volta a Itália a correr como se o dia tivesse sido desenhado à sua medida. Porém, à chegada a Cosenza, a formação espanhola fez quase tudo… menos ganhar.
O trabalho agressivo no Cozzo Tunno partiu a corrida, acabou com a presença do maglia rosa Thomas Silva no pelotão, afastou vários sprinters e colocou Egan Bernal sob pressão durante alguns quilómetros.
Ainda assim, quando o pelotão reduzido entrou no final técnico, foi Jhonatan Narváez a selar o triunfo para a UAE Team Emirates-XRG, enquanto
Orluis Aular teve de se contentar com o segundo lugar depois de ser lançado mais cedo do que o ideal.
Em declarações ao podcast In Het Wiel, a analista
Roxane Knetemann levou com humor um desfecho em que o líder de GC da Movistar,
Enric Mas, acabou de repente a tentar ajudar a fechar o plano de sprint da equipa.
Movistar incendeia a etapa mas falha o golpe final
A jogada da Movistar no Cozzo Tunno foi um dos momentos-chave do dia. Foi a única subida categorizada da etapa, mas a equipa espanhola usou-a para transformar um potencial sprint reduzido numa seleção bem mais dura.
O ritmo eliminou rapidamente muitos sprinters da disputa. Dylan Groenewegen, Jonathan Milan, Paul Magnier e Tobias Lund Andresen estiveram entre os mais pressionados ou distanciados, enquanto Silva também perdeu contacto e acabou por ceder a Maglia Rosa a Giulio Ciccone.
Para a Movistar, a lógica era clara. Aular superara bem a subida e ainda tinha colegas por perto, abrindo uma via para a vitória após terem provocado grande parte dos estragos. Mas os quilómetros finais foram tudo menos simples, com um traçado sinuoso e um ataque tardio de
Jan Christen a baralhar a perseguição. “Se é com isto que tens de ganhar a guerra, neste final…” observou Knetemann, a rir, ao avaliar a posição da Movistar depois da meta.
Ainda assim, reconheceu que a Movistar assumiu a corrida. “E desde aquela subidinha, que era mesmo uma subida horrível. No road book parecia mais fácil quando olhei para aquilo”, afirmou.
Ataque de Christen deixa a Movistar em aflição
A complicação decisiva surgiu quando Christen atacou dentro dos últimos dois quilómetros. O ciclista da UAE não chegou isolado, mas obrigou a Movistar a reagir precisamente no momento em que precisava de ordenamento em torno de Aular.
Knetemann considerou que o movimento criou a confusão que acabou por prejudicar o plano final da equipa espanhola. “Mas, como Movistar, estás basicamente a rebentar a corrida toda desde aquela subida”, disse. “E depois tens de ganhar a guerra num final cheio de curvas, com o Mas”, acrescentou, entre risos.
Depois de Christen ser alcançado, Aular ficou exposto demasiado cedo. Lançou o sprint, mas o esforço revelou-se longo demais, e Narváez passou para vencer a etapa. “Teve de o fazer um bocadinho", comentou Knetemann sobre o arranque precoce de Aular.
Na sua perspetiva, o erro-chave surgiu na perseguição a Christen. “O Mas nem fechou mesmo o espaço. Foi o Sobrero, da Lidl. Na verdade, ele devia ter estado na posição do Ciccone”, apontou. Ciccone acabou em terceiro na etapa, resultado que o ajudou a vestir a Maglia Rosa depois de Silva ter sido descolado mais cedo.
Narváez encabeça a reação da UAE
Enquanto a Movistar lamentava a oportunidade perdida, a UAE foi a equipa que transformou o caos em dividendo. O ataque de Christen ajudou a endurecer e a desorganizar o final, antes de Narváez concluir o trabalho no sprint.
Knetemann elogiou o instinto de Christen, que atacou após aparentar discrição no grupo. “Na verdade, foi um ataque super giro, de surpresa”, apontou. “Mesmo um daqueles que esperas, sobretudo num final cheio de curvas como o de hoje. Ele vinha pendurado lá atrás o tempo todo, e tu pensavas: pá, afinal o que é que vais fazer?”
A resposta foi atacar. Para Knetemann, isso casa com o estilo de Christen. “Não esperava aquela aceleração… na verdade, esperava, não era. Foi um pouco típico do Christen, o que ele fez hoje. Passou a voar pelo Mas, acho eu”, concluiu.
Para a Movistar, a 4ª etapa foi um dia de tática ousada, pressão dura em subida e um desfecho que se evaporou no final. Para a UAE, ainda a recompor-se após perder Adam Yates, Jay Vine e Marc Soler da corrida, a história foi bem diferente. Narváez deu-lhes a vitória, Christen esteve perto da rosa, e a Movistar ficou a perguntar-se como é que um plano tão dominante terminou sem triunfo.