OPINIÃO | Jonas Vingegaard não deve disputar a Volta a Itália 2026

Ciclismo
quarta-feira, 07 janeiro 2026 a 19:45
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Nos últimos dias, vários relatos sugeriram que Jonas Vingegaard está já confirmado para correr a Volta a Itália de 2026, um passo que poderá marcar a sua estreia na Corsa Rosa com o objetivo de completar o trio das três Grandes Voltas, juntando-se a uma elite histórica que inclui Eddy Merckx, Alberto Contador e Bernard Hinault. No entanto...
Esses relatos indicam que já existe um acordo com a organizadora RCS para o dinamarquês fazer a sua estreia no Giro em maio de 2026 como parte do seu calendário. A decisão parece óbvia e tem sido fortemente insinuada desde a vitória do dinamarquês na Volta a Espanha de 2025.
À primeira vista, a ideia de Vingegaard apontar à Volta a Itália - a única Grande Volta que lhe falta depois de vencer a Volta a França em 2022 e 2023 e a Volta a Espanha em 2025 - soa a ambição desportiva natural. Contudo, do ponto de vista estratégico de preparação para a Volta a França de 2026 e na rivalidade direta com Tadej Pogacar, esta escolha parece um erro.
O meu argumento assenta no que aconteceu nos últimos anos, à medida que ambos moldaram os seus calendários em função do maior objetivo do ciclismo, a Volta a França. Para avaliá-lo, é preciso separar a estratégia de performance da simples ambição de palmarés.
Em 2022 e 2023, Vingegaard venceu a Volta a França em edições consecutivas, afirmando-se como um dos melhores corredores de Grandes Voltas do pelotão e, no papel, a referência a bater. Em 2023 em particular, controlou a corrida desde as primeiras etapas, dominou momentos-chave como o contrarrelógio da etapa 16 e exibiu capacidade para distanciar Pogacar nos momentos decisivos. Dados publicados pelo ProCyclingStats confirmam que Vingegaard foi superior em vários setores da corrida, incluindo o desempenho no contrarrelógio e nas etapas de montanha cruciais, quando chegou com preparação específica para o Tour.
Jonas Vingegaard e Tadej Pogacar na Volta a França de 2025
Jonas Vingegaard e Tadej Pogacar voltam a medir forças na Volta a França de 2026
Depois dessas duas vitórias, porém, as trajetórias de ambos mudaram de forma nítida. Em 2024, Pogacar optou por disputar Volta a Itália e Volta a França na mesma temporada e conseguiu a rara dobradinha, a primeira vez desde 1998 que um corredor venceu ambas no mesmo ano.
Esse Giro antes do Tour pareceu servir de trampolim direcionado para o esloveno, embora com o custo físico expectável de disputar uma Grande Volta antes de julho. Em simultâneo, Vingegaard caiu na Volta ao País Basco, fator amplamente citado por analistas como comprometedor da sua preparação para o Tour e redutor do seu nível face a Pogacar em julho.
O padrão repetiu-se em 2025. Após outra época marcada por problemas físicos e contratempos, Vingegaard não chegou ao arranque do Tour na melhor forma. O desfecho foi nova vitória de Pogacar na Volta a França, desta vez por mais de quatro minutos na geral, somando várias etapas e controlo dominante da corrida. O Guardian sublinhou que Pogacar selou o quarto título com uma performance marcada pela consistência e superioridade nos momentos críticos.

O desgaste de Pogacar

Um aspeto que recebeu menos atenção na cobertura geral foi o claro desgaste que Pogacar evidenciou no fim da Volta a França de 2025. Segundo relatos especializados, e como reconheceu após a etapa final, o esloveno terminou profundamente cansado, física e mentalmente, o que é lógico após três semanas de esforço extraordinário somadas a uma primavera exigente em duelo com Mathieu van der Poel por vários Monumentos, programa que deverá repetir em 2026.
Aqui está o cerne do meu argumento: se Vingegaard dedicasse 2026 a uma preparação específica para o Tour, evitando o desgaste de uma Grande Volta como a Volta a Itália, poderia chegar a julho melhor equipado para um duelo direto com Pogacar e, crucialmente, para explorar o cansaço que o esloveno provavelmente acumulará ao voltar a perseguir Flandres e Liège e ao tentar uma primeira vitória em Sanremo e Roubaix.
Correr o Giro implica, física e fisiologicamente, três semanas de competição de alta exigência, com montanha, contrarrelógios e tensão constante. Mesmo os melhores do mundo pagam essa carga com recuperação prolongada, ajustes de calendário e gestão de pequenas mazelas. No contexto de um único objetivo específico como a Volta a França, esse acumulado de quilometragem e esforços pode criar um défice de frescura no momento-chave: as duas últimas semanas de julho, quando a maioria dos Tours se decide.
Em contraste, Pogacar mostrou nas últimas épocas que tolera calendários intensos com múltiplos objetivos de primavera sem comprometer o pico de forma em julho. A sua participação nas grandes Clássicas, corridas por etapas de preparação e esforços extra não se traduziu numa quebra significativa no Tour, ao ponto de acumular quatro títulos e tornar-se sinónimo de consistência competitiva no ciclismo moderno. Essa resiliência ao desgaste cumulativo e a capacidade de competir duro antes do Tour sem perder afinação parecem dar-lhe uma vantagem psicológica e física sobre rivais que têm de priorizar um único objetivo sazonal.
É perfeitamente compreensível que completar vitórias nas três Grandes Voltas seja uma ambição desportiva maior. Vencer a Volta a Itália, a Volta a França e a Volta a Espanha coloca qualquer corredor num patamar histórico raro de versatilidade e força excecional. Porém, a questão estratégica é: isso maximiza as hipóteses de bater o principal rival na corrida mais importante do ano? Para mim, a resposta é não.
Se Vingegaard quiser derrotar Pogacar em julho de 2026 na Volta a França, a melhor hipótese seria desenhar uma temporada em que a preparação específica e a gestão de carga estivessem orientadas exclusivamente para chegar ao Tour em condição ótima, capitalizando qualquer fraqueza física que o rival mostrou no ano anterior. Em vez disso, ao escolher disputar o Giro, um evento que exige imensos recursos físicos e mentais apenas seis semanas antes da Grande Boucle, e que terá concorrentes de peso, como João Almeida, está a optar por diluir as suas hipóteses realistas de apresentar um rendimento superior em julho.

Vingegaard nas Grandes Voltas

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