Por um breve momento no Kemmelberg, a
In Flanders Fields - From Middelkerke to Wevelgem pareceu prestes a oferecer o duelo direto que o ciclismo aguardava.
Mathieu van der Poel e
Wout van Aert isolaram-se juntos, distanciando o pelotão e transformando a corrida num duelo familiar entre dois dos nomes definidores da sua geração. A seleção foi limpa, a vantagem crescia e o cenário parecia perfeitamente montado.
Mas o sprint nunca aconteceu. Em vez disso, a corrida voltou a pender para o pelotão nos quilómetros finais, com o grupo perseguidor a reorganizar-se e, por fim, a neutralizar o movimento. Jasper Philipsen acabaria por vencer ao sprint, concluindo o desfecho de equipa que vinha a ser construído discretamente nos bastidores.
Uma escolha entre instinto e resultado
A decisão de não se entregar totalmente ao ataque ficou, desde então, sob escrutínio.
O próprio Van der Poel admitiu no pós-corrida que correu de forma mais contida, gerindo o esforço após um bloco exigente de competição e tendo em conta o plano coletivo. Com Philipsen colocado atrás num grupo forte para o sprint, o equilíbrio do risco alterou-se.
No podcast In de Waaier,
Thijs Zonneveld apontou esse momento como a viragem decisiva, enquadrando-o como uma troca entre espetáculo e estratégia. “Acho que fez a escolha certa ao não se comprometer totalmente, em prol da equipa”, disse Zonneveld. “Mas para o duelo: pontos de penalização, a sério, para Mathieu van der Poel por não ter seguido a fundo. Teria adorado, mas adorado mesmo, vê-los a sprintar os dois. E era isso que todos queriam”.
Mathieu van der Poel e Wout van Aert na In Flanders Fields - From Middelkerke to Wevelgem 2026
Fadiga e detalhes mínimos
O contexto dessa decisão vinha de trás. Segundo Zonneveld, o esforço exigido a Van der Poel na
E3 Saxo Classic dois dias antes teve um papel determinante. O neerlandês exibiu ali um nível extraordinário, partilhando depois dados que sublinharam a intensidade da prestação.
Esse esforço pareceu deixar marcas. “Ele ainda sentia isso”, explicou Zonneveld. “Estava forte, mas o muito melhor já não estava lá. E Van Aert não tinha esse desgaste”.
O sinal mais claro surgiu nos quilómetros finais. Quando Alec Segaert atacou tardiamente, Van der Poel ponderou responder, mas não conseguiu fazer a manobra resultar, evidenciando o limite a que rodava.
Um duelo adiado
No final, a corrida encontrou um vencedor, mas não o momento que muitos antecipavam.
O movimento no Kemmelberg moldou a corrida e reduziu-a aos seus protagonistas mais fortes, mas o desfecho seguiu outra direção. O sprint que parecia inevitável entre Van der Poel e Van Aert não se materializou. “Que pena. Não aconteceu. Queríamos mesmo ver isso. Agora teremos de esperar pela Volta à Flandres”, disse Zonneveld.
Fica a sensação do que poderia ter sido. A decisão fez sentido no contexto da corrida e da força da Alpecin-Premier Tech, mas deixou uma pergunta no ar. Quando a oportunidade voltar a surgir, prevalecerá o instinto sobre o cálculo, ou o plano maior voltará a ter prioridade?