A coincidência temporal foi marcante. No mesmo dia em que
Simon Yates confirmou a sua retirada imediata do ciclismo profissional,
Julian Alaphilippe falava abertamente sobre a perspetiva de longo prazo da sua carreira e a possibilidade de que alguns dos maiores palcos do ciclismo possam em breve ganhar um peso de despedida.
O
calendário de 2026, revelado recentemente, já sugeria uma época desenhada com propósito. Agora, as suas palavras dão a esse programa uma carga emocional extra. Aos 33 anos, deixou claro que, embora a retirada não seja iminente, já não dá por garantidos os marcos que se aproximam.
“Talvez seja a minha última, e é também no circuito de Montreal, de que gosto, por isso pode ser um grande objetivo”, explicou Alaphilippe, em conversa com jornalistas no media day da
Tudor Pro Cycling Team.
A referência era ao
Campeonato do Mundo de Estrada em Montreal, prova que agora se coloca ao lado da
Volta a França e das Clássicas das Ardenas como um dos alvos definidores da sua temporada.
Uma época construída em torno do foco, não do medo
Alaphilippe co-liderou a seleção francesa no Campeonato do Mundo de 2025, no Ruanda, com Paul Seixas
Alaphilippe tem evitado enquadrar 2026 como uma digressão de despedida. Antes, a sua linguagem aponta para clareza, não prudência. A decisão de depurar a campanha de primavera e não misturar as Clássicas Flandres com as Ardenas foi apresentada como um regresso ao que melhor funciona para si. “Acho que vou voltar a um programa mais clássico da minha parte, sem misturar as Clássicas Flandres e as Ardenas”.
Essa escolha coloca a Liège–Bastogne–Liège no centro da primavera, apoiada pela Amstel Gold Race e pela Flèche Wallonne. É um estreitar deliberado do foco, não um passo atrás, algo que descreveu em termos de motivação e não de limitação. “Estarei mais focado nas Ardenas. Gosto e dá-me muita motivação”.
A estrutura da época espelha esse mindset. Arranque cedo na Volta ao Algarve, bloco de março em Itália e no País Basco, campanha concentrada nas Ardenas, regresso à
Volta a França e, depois, foco apontado a Montreal.
Contexto moldado pelo que ficou para trás
O cenário canadiano tem um significado particular.
A única vitória de 2025 surgiu nessas mesmas estradas, no Grand Prix Cycliste de Quebec, resultado que descreveu como profundamente pessoal. “Cada vitória é importante, mas esta era uma vitória que procurava há muito tempo. Claro que a saboreei. Foi bastante emotivo”.
Esse sucesso alimenta diretamente o plano para 2026. Em vez de perseguir volume ou novidade, o programa reflete um corredor decidido a revisitar lugares e corridas que ainda acendem algo mais fundo.
Motivação sem prazo de validade
Questionado frontalmente sobre o futuro, Alaphilippe recusou definir uma contagem decrescente. Ao contrário de Yates, cuja decisão nasceu de um sentido de missão cumprida, insistiu que a sua situação é distinta. “Neste momento, não estou numa posição de pensar se devo continuar ou não, porque sei que estou super motivado para este ano e para 2027”.
Essa motivação, explicou, só se aguçou na segunda temporada com a
Tudor Pro Cycling Team, onde lhe deram maior autonomia para moldar o seu calendário. “Sei como ser profissional, mas ter também esta liberdade de escolher as minhas corridas, de escolher a forma como faço as coisas, é um privilégio e agradeço”.
A chama, como disse, continua acesa. “Quando ainda tens esse fogo dentro de ti, isso é um bom sinal”.
Se 2026 será uma época de despedidas ou apenas mais um capítulo escolhido com cuidado, continua em aberto. Mas, num dia em que um contemporâneo decidiu fechar o livro, Alaphilippe deixou claro que ainda está a escrevê-lo.