Correr ao mais alto nível é hoje mais duro do que nunca no ciclismo profissional, como dizem muitos corredores, entre eles
Sergio Samitier, da
Cofidis, que oferece uma perspetiva diferente sobre o teto salarial, a preparação necessária só para integrar o pelotão e a forma como as equipas se adaptam à dominação de
Tadej Pogacar, Remco Evenepoel e congéneres.
“Quanto ao teto salarial, não sei, não sou eu que decido. É claro que, como em todos os desportos, quanto maior o orçamento, melhores são os corredores, a infraestrutura, o equipamento… tudo é melhor. Faremos as coisas com humildade, com o que temos e até onde pudermos ir. Não me posso comprometer demasiado, mas, da minha posição, eu implementá-lo-ia”, afirmou Samitier numa entrevista ao
Marca.
Samitier correu entre 2020 e 2024 na Movistar e desde 2025 integra a Cofidis. No primeiro ano com a equipa espanhola mostrou-se um trepador talentoso, com potencial para especialista de Grandes Voltas, ao terminar em 13º na Volta a Itália; porém, ao longo dos anos o nível disparou e não voltou a replicar tais resultados.
O corredor de 30 anos disputou duas vezes a Volta a Espanha e três a Volta a Itália, mas ainda não se estreou na Volta a França. Também não está nos planos deste ano, apesar de a agora despromovida Cofidis ter convite automático para a corrida. “Quero estar na Vuelta, porque é uma prova de que gosto muito. Deixaremos o Tour para os nossos amigos franceses. Tenho a certeza de que haverá representação espanhola, e tenho a certeza de que farão melhor do que eu”.
Correr contra Pogacar
O foco dele e da equipa incidirá nas corridas sem os “cabeças de cartaz”. Na Cofidis, há poucas expectativas de vencer provas onde estejam os melhores desta geração, e a estratégia não passa por enfrentá-los diretamente.
“Bem, criando um calendário alternativo ao do Pogacar. Sabemos que, quando ele está, é muito difícil. Pogacar, Evenepoel… mas enfim, temos de fazer o nosso melhor”, explica. “E se o Pogacar ganhar, lutaremos pelo segundo lugar”.
Ainda assim, o espanhol não vê a dominação de Pogacar como negativa para a modalidade, antes pelo contrário: “Acho que o ciclismo está em alta. O efeito Pogacar trouxe muito mais gente ao desporto. Antes, era o Giro, o Tour e a Vuelta. Agora as pessoas seguem mais eventos. Temos de encontrar um equilíbrio”.
Exigências de ser profissional
Samitier tem contrato até 2027, mas sabe que, para se manter em alto nível, tem de se adaptar continuamente às novas tecnologias, métodos de treino e nutrição que evoluem sem parar para extrair o máximo dos corredores.
“O ciclismo mudou muito. Agora sobem-se as montanhas a potências incrivelmente altas e ninguém é deixado para trás. Toda a gente treina muito mais. O nível médio é tão elevado que agora é muito difícil”, continua. Apesar de ser um corredor de segunda divisão, uma figura modesta dentro da equipa francesa, sublinha as exigências para se manter competitivo no pelotão World Tour.
“Tudo é levado ao limite. Chegas a casa e ainda tens de cuidar de ti: câmara de hipóxia (para replicar altitude), peso, app de [alimentação]… Tudo é meticulosamente controlado”.
“Talvez seja isso que faz as pessoas perderem a cabeça”, argumenta. “É uma combinação de fatores. Uns sabem lidar com isso e outros não. Mas é claro que ou te adaptas ou morres”.