Quando
Wout van Aert atacou com potência na subida final de Montmartre, na etapa de encerramento da
Volta a França 2025, as imagens tornaram-se rapidamente das mais repetidas da corrida desse ano.
Largar Tadej Pogacar nas ruas de Paris e seguir isolado até à vitória nos Champs-Élysées soou a triunfo raro e simbólico.
Meses depois, porém, o próprio Van Aert mostra-se surpreendentemente modesto perante aquilo que muitos adeptos consideram uma das vitórias mais marcantes da sua carreira.
Ao recordar essa etapa numa entrevista recente, o belga sugeriu que as circunstâncias da corrida influenciaram o desfecho. “Tenho de ser honesto: ele estava um pouco abaixo do melhor, talvez por causa daquela lesão no joelho”, esmiuçou Van Aert à Knack.
A observação é relevante porque o duelo de Montmartre foi amplamente retratado como um confronto dramático entre dois dos corredores mais versáteis do pelotão. Em vez disso, o próprio Van Aert prefere enquadrar o momento com maior sobriedade.
Final em Montmartre transformou a tradicional etapa de Paris numa corrida a sério
Van Aert conquistou uma das vitórias mais icónicas da sua carreira na etapa final da Volta a França 2025
A etapa final da Volta a França 2025 rompeu com uma tradição de longa data. Em vez do habitual desfile cerimonial a encaminhar para um sprint em pelotão nos Champs-Élysées, a organização introduziu múltiplas passagens pela Côte de la Butte Montmartre, transformando o final num circuito seletivo pelas ruas estreitas sob o Sacré-Coeur.
A chuva intensa ao início da noite já alterara a dinâmica da etapa. Com a classificação geral neutralizada antes dos circuitos decisivos, a luta pela camisola amarela ficou, na prática, resolvida. Pogacar precisava apenas de concluir em segurança para garantir o triunfo final.
O que se seguiu, porém, produziu uma batalha tardia e dramática.
Depois de uma série de ataques redesenhar o grupo da frente na subida de Montmartre, Pogacar acelerou na ascensão final. Van Aert foi o único a conseguir seguir a roda. Perto do topo, o belga contra-atacou e abriu rapidamente espaço, rolando sozinho nos quilómetros finais de regresso aos Champs-Élysées.
Atrás, a perseguição nunca fechou. Van Aert cortou a meta em solitário, em Paris, selando uma das vitórias de etapa mais invulgares alguma vez vistas no dia final do Tour.
Van Aert desvaloriza a exibição
Apesar do espetáculo do momento, Van Aert insiste que a prestação em si foi menos extraordinária do que poderá ter parecido do lado de fora.
“Pelas minhas capacidades, não fiz nada de extraordinário”, explicou. “Foi muito duro, mas foi ‘apenas’ uma hora de corrida a sério. Não fiquei completamente esgotado durante uma semana depois”.
Os comentários oferecem um raro vislumbre de como os próprios corredores avaliam estas exibições. O que para muitos observadores pareceu um duelo definidor entre duas das maiores estrelas do ciclismo foi, aos olhos de Van Aert, apenas um final curto e intenso, e não um esforço físico monumental.
Essa perspetiva ajuda também a explicar por que motivo o belga reconheceu rapidamente as circunstâncias de Pogacar no dia. O esloveno já tinha, na prática, assegurado o Tour e corria sob condições meteorológicas difíceis, fatores que poderão ter condicionado a agressividade com que abordou o final.
Um momento crucial após um Tour difícil
Mesmo com todos os sublinhados, a vitória teve um significado pessoal importante para Van Aert.
A Volta a França 2025 não tinha corrido de feição ao belga nem às ambições mais amplas da sua equipa. As oportunidades de vitória em etapa foram escassas e a corrida ofereceu poucos momentos de recompensa pessoal.
Esse contexto tornou o duelo em Montmartre ainda mais relevante do ponto de vista psicológico. “Imaginem que o Tadej me tinha largado ali em Montmartre, depois de um Tour difícil, sem sucesso pessoal ou hipótese de geral com o Jonas… então teria ido para casa com um mau feeling”.
Em vez disso, a última noite em Paris trouxe um desfecho muito diferente.
Embora Van Aert agora desvalorize a exibição em si, a imagem de o ver afastar-se de Pogacar nas pedras de Montmartre permanece como uma das cenas definidoras da Volta a França 2025.