“Tudo começou com uma decisão errada de Jasper Philipsen... os comentários de Tadej Pogacar foram injustos” - Especialista do Paris-Roubaix oferece perspetiva única sobre o caos de 2026

Ciclismo
quarta-feira, 29 abril 2026 a 21:00
Captura de ecrã 12.04.2026 12:49:02
A edição de 2026 do Paris-Roubaix ofereceu uma das corridas mais caóticas e imprevisíveis dos últimos anos, com sucessivos problemas mecânicos a afetarem todos os principais candidatos.
Do triplo furo de Tadej Pogacar aos contratempos repetidos de Wout van Aert e Mathieu van der Poel, a prova foi moldada tanto pelo material e pelas decisões como pelas pernas. Para Alan Marangoni, seis vezes presente em Roubaix e antigo gregário de Clássicas, o momento-chave aconteceu dentro da Floresta de Arenberg.

Confusão dentro de Arenberg

O duplo furo de Van der Poel em rápida sucessão desencadeou uma das sequências mais discutidas da corrida, já que a confusão em torno de uma troca de bicicleta custou tempo precioso. “Na minha opinião, tudo começou com uma decisão errada de Jasper Philipsen, que depois gerou confusão”, explicou Marangoni à Bici.Pro. “Ele não pensou bem. Quis logo dar a sua bicicleta ao Van der Poel sem considerar que é mais baixo, logo a bicicleta é mais pequena e, sobretudo, que tinha pedais diferentes. Foi daí que nasceu o desastre”.
Na prática, a solução podia ter sido bem mais simples. “Quando teria bastado dar-lhe a roda e perderiam metade do tempo”, acrescentou, sublinhando como uma pequena decisão se tornou decisiva num instante.

Tomada de decisão sob pressão

Para Marangoni, o problema não foi só o erro em si, mas a falta de preparação para estes cenários. Considera que até Van der Poel “não estava completamente lúcido”, apesar do que pudesse parecer do exterior.
“Nessas situações nem sempre é fácil tomar a decisão certa”, reconheceu. “Por isso acho que também deveriam treinar isto, a gestão do imprevisto, sobretudo numa corrida como Roubaix”.
Essa perspetiva aponta para uma lacuna mais ampla na preparação moderna. “Não creio que façam reuniões sobre isto, o que é estranho se pensarmos como todos os outros detalhes são estudados”, continuou Marangoni. “Bastaria decidir de antemão o que fazer se algo acontecer. Fazer uma lista de problemas possíveis. Por exemplo, quando é melhor dar a bicicleta ao líder, quando é melhor esperar pelo carro da equipa e quando é suficiente trocar a roda”.

Bicicleta vs roda: um erro-chave

O incidente de Arenberg também expôs aquilo que Marangoni vê como uma tendência crescente no pelotão. “Às vezes parece que os corredores estão tão habituados a mudar de bicicleta por qualquer problema que nem consideram que, por vezes, é melhor apenas trocar a roda”, afirmou.
Essa distinção, argumenta, pode ser decisiva. “Claro, talvez ao trocar a roda percas alguns segundos de imediato, mas depois tens a tua própria bicicleta”, explicou Marangoni. “Se, em vez disso, ficas numa bicicleta que não é tua e tens de a conduzir durante 10 ou 20 quilómetros, obviamente não consegues render da mesma forma”.

Pogacar e o serviço neutro

O azar do esloveno acrescentou mais uma camada ao caos mecânico da corrida, em particular o recurso a uma bicicleta do serviço neutro. “Falei com um mecânico da Shimano e ele disse-me que têm cinco bicicletas com as medidas dos cinco favoritos, mais um espigão telescópico para lidar com qualquer situação”, referiu Marangoni.
Tadej Pogacar na Paris-Roubaix 2026
Tadej Pogacar acabaria por terminar em 2º no Paris-Roubaix 2026
“Talvez o Pogacar não soubesse disso ou não se tenha apercebido no momento, mas teria bastado um segundo para ajustar o selim”, prosseguiu. “Pelas imagens, pareceu alto demais e ele não pedalava bem. Por isso, acho que os seus comentários foram um pouco injustos”.

Falhas de comunicação

Marangoni apontou também fatores situacionais que agravaram o problema. “Naquele momento ele ia no fundo do grupo e acho que simplesmente não o viram”.
“Além disso, o rádio não tinha sinal nesse setor, portanto houve problemas de comunicação”, acrescentou. “Mas isso é outra coisa que é preciso antecipar, porque naquela corrida tudo pode acontecer”.

O caos como parte de Roubaix

Em última análise, a edição de 2026 reforçou a natureza imprevisível do Paris-Roubaix, onde preparação e instinto têm de se adaptar constantemente às circunstâncias. “Eu diria aos ciclistas que os problemas vão acontecer, mas quase sempre podem ser geridos com a ajuda dos colegas”, considerou Marangoni.
“Claro que, se partires a bicicleta em dois, tens de esperar pelo carro da equipa, mas isso não acontece em todas as corridas”, continuou. “Eu passaria meia hora no dia anterior, ou na manhã da corrida, a listar dez problemas possíveis e dez soluções rápidas para os resolver da melhor maneira”.
Numa corrida definida pelo caos, essas decisões podem ser a diferença entre manter-se na luta e vê-la fugir pela estrada fora.
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