O domínio de
Jonas Vingegaard na
Volta a Itália 2026 ganhou subitamente novas dúvidas. O líder da
Team Visma | Lease a Bike mantém uma posição forte na geral após a 10ª etapa, mas o contrarrelógio de Viareggio a Massa deixou
Philippe Gilbert a questionar se há algo mais profundo em causa.
Esperava‑se amplamente que Vingegaard tirasse a Maglia Rosa a Afonso Eulálio no único contrarrelógio individual da corrida. Em vez disso, o dinamarquês foi 13º na etapa, a três minutos de Filippo Ganna, e ficou a 27 segundos da rosa.
O resultado não foi um desastre para a geral. Vingegaard ainda ganhou 1:57 a Eulálio e aumentou a vantagem sobre vários rivais.
Mas o antigo campeão do mundo e tetracampeão das Ardenas, Gilbert, defendeu na Eurosport France que a forma como pedalou é mais preocupante do que as diferenças de tempo em si.
“Vingegaard? É uma desilusão, mesmo que não haja pânico na classificação geral nem quanto a uma possível vitória final”, vincou Gilbert.
Gilbert avisa que uma fraqueza na montanha seria muito mais cara
Jonas Vingegaard em ação durante o contrarrelógio individual da 10ª etapa da Volta a Itália 2026
A preocupação de Gilbert não era que Vingegaard tivesse perdido o Giro no contrarrelógio. Era que um dia mau semelhante na montanha teria consequências bem maiores. “Mas ele não se pode dar ao luxo de ter um dia assim na montanha”, alertou. “Se tiver uma fraqueza dessas numa subida de 10 ou 15 quilómetros, isso conta‑se em minutos”.
Aqui está o cerne da questão. A 10ª etapa foi um contrarrelógio plano e de potência, especialidade que o próprio Vingegaard admitiu não ser a sua. Mas o Giro ainda guarda etapas decisivas de montanha, onde qualquer quebra real será mais difícil de disfarçar e muito mais perigosa para a sua ambição geral.
Vingegaard continua favorito, mas a aura de certeza esbateu. Já venceu as duas chegadas em alto deste Giro, porém vários analistas questionam agora se estará tão dominante como se previa.
“A forma como pedalou hoje não é normal”
O ícone francês e múltiplo vencedor de etapas na Volta a França, Jacky Durand, também rejeitou a ideia de que Vingegaard estivesse apenas a gerir o esforço. “Foi gestão? Não acredito”, contrapôs Durand. “No último quilómetro, estive a ver Vingegaard. Se aquilo é gestão, ele faz uma careta bem grande”.
Gilbert foi mais longe, sugerindo que os sinais visuais não eram os de um corredor a rodar abaixo do limite por opção. “É o seu pior contrarrelógio desde que se tornou Vingegaard, desde que ganhou o Tour”, afirmou Gilbert. “Esperamos que não esteja a ficar doente. Fala‑se de um vírus neste Giro”.
Apontou depois a linguagem corporal de Vingegaard na bicicleta como motivo de preocupação. “Em todo o caso, a forma como pedalou hoje não é normal”, acrescentou Gilbert. “O posicionamento da cabeça é baixo, vê‑se que tem dificuldade em respirar, são sinais que não enganam. Viu‑se que não estava num bom dia. Suava muito”.
Esses comentários adensam o tom do debate pós‑etapa. Outros enquadraram a prestação de Vingegaard como produto do traçado, com um longo contrarrelógio plano a favorecer corredores mais potentes. Gilbert não descartou totalmente essa leitura, mas centrou a preocupação no aspeto com que Vingegaard perdeu tempo.
Traçado desfavorável ou sinal de aviso
A explicação do próprio Vingegaard após a etapa foi direta.
Descreveu o contrarrelógio como “terrível” e reiterou que um teste longo e plano não é a sua especialidade. O argumento tem peso. O percurso favorecia quem tem maior potência absoluta, e a vitória de Ganna esteve num patamar completamente diferente.
Mas Gilbert e Durand veem claramente uma questão que só terá resposta nos próximos dias. Foi apenas um traçado mau para Vingegaard, ou indício de que não está no seu melhor neste Giro?
A comparação com o seu nível anterior em contrarrelógio alimenta o debate. Mesmo em terreno plano, Vingegaard já assinou prestações mais fortes em Grandes Voltas contra o cronómetro. O registo na 10ª etapa ficou aquém das expectativas associadas ao seu estatuto.
Giro continua ao alcance
Para já, a classificação geral mantém‑se favorável. Eulálio segue de rosa, mas apenas por 27 segundos. Thymen Arensman subiu a terceiro após ser segundo na etapa, mas continua a 1:30 de Vingegaard.
O que aí vem também favorece muito mais Vingegaard do que o contrarrelógio até Massa. Se responder na montanha, a 10ª etapa pode rapidamente tornar‑se um dia estranho, mas ultrapassável.
Se repetir os mesmos sinais quando o Giro voltar a subir, o aviso de Gilbert ganhará outra dimensão. Um contrarrelógio difícil não alterou o favorito. Alterou, sim, as perguntas em seu redor.