Durante mais de uma década, Addy Engels integrou a engrenagem interna que ajudou a transformar a antiga LottoNL-Jumbo numa das equipas mais dominantes que o pelotão moderno conheceu. Mas, após dez anos dentro do projeto, o experiente diretor-desportivo neerlandês sentiu que era altura de dar um passo ao lado.
Numa entrevista ao IDLProCycling.com, Engels explicou que a decisão de sair da
Team Visma | Lease a Bike não resultou de qualquer conflito, mas de uma sensação crescente de que o ambiente mudara após tanto tempo dentro do mesmo sistema.
“Passei tempos fantásticos com a equipa e vivi coisas incríveis”, descreveu Engels ao IDL. “Mas, ao fim de uma década, nota-se que certos processos começam a tornar-se rotina. Senti que estava a começar a entrar um pouco em piloto automático”.
A sua saída ocorreu num inverno que já registara várias mudanças subtis numa estrutura que, em tempos, foi referência de inovação e organização no ciclismo profissional.
Uma década dentro do projeto mais influente do ciclismo
Engels juntou-se à formação neerlandesa em 2014, quando a equipa competia como LottoNL-Jumbo. Ao longo da década seguinte, integrou a transformação que elevou a organização a potência capaz de vencer nos maiores palcos da modalidade.
Vitórias em Grandes Voltas com ciclistas como Jonas Vingegaard e Primoz Roglic, triunfos em Monumentos e um fluxo constante de etapas consolidaram a equipa como o coletivo mais dominante do pelotão durante várias temporadas.
Mas, à medida que a equipa cresceu, o papel de Engels também evoluiu. “O meu papel volta a estar mais focado no lado desportivo, enquanto na Visma eu estava mais nos bastidores”, explicou. “Estava certamente envolvido em corridas e na vertente desportiva, mas acumulava também muitas tarefas logísticas”.
Depois de anos imerso numa das organizações mais estruturadas do ciclismo, a oportunidade de se mudar para o projeto Tudor Pro Cycling de Fabian Cancellara representou um desafio diferente. “Conhece-se muita gente nova e isso dá uma lufada de ar fresco”, disse Engels. “Já me sinto bastante em casa; a química é boa e estou contente por estar na Tudor”.
Visma navega um inverno de mudança
As reflexões de Engels surgem num momento em que a formação neerlandesa atravessa um período de transição nos bastidores.
No último ano, a estrutura que alicerçou a ascensão da equipa sofreu várias alterações. Elementos históricos da casa seguiram outros caminhos, enquanto o plantel também registou saídas relevantes durante a época baixa.
Em paralelo, os rivais começaram a encurtar a diferença que a Visma chegou a impor ao restante pelotão. Em particular, a UAE Team Emirates - XRG afirmou-se como a força mais dominante do momento, com profundidade de talento e um estilo de corrida agressivo que reequilibraram a disputa no topo do WorldTour.
Neste contexto, a descrição de Engels de um sistema que começava a soar a rotina oferece um vislumbre do modo como o projeto poderá ter evoluído internamente após anos de sucesso. “Não que fosse mau: estive dez anos na Visma”, acrescentou Engels. “E, nos últimos dois anos, reparei que as coisas estavam a começar a funcionar um pouco em piloto automático. Aproveitei imenso, passei lá um ótimo período”.
O diretor neerlandês evitou enquadrar a sua saída como crítica à equipa que ajudou a moldar a sua carreira. Preferiu apresentá-la como um momento natural de mudança após uma década na mesma organização. “Não que fosse mau. Estive dez anos na Visma e desfrutei imenso”, assinalou. “Mas senti que ainda podia dar o salto e tentar algo novo”.
Para a Tudor, a chegada de um diretor com experiência numa das equipas mais influentes do pelotão representa mais um passo no crescimento sustentado da formação suíça. “Isso é o mais importante, sobretudo tendo em conta a nossa ambição de entrar no WorldTour com o ciclo que agora recomeçou”, explicou Engels sobre a direção do projeto. “Ao mesmo tempo, foi muito positivo ter-se decidido primeiro assentar uma base”.
Para a Visma, por seu turno, a saída de Engels é mais um pequeno capítulo num inverno de mudanças silenciosas em torno de uma equipa que passou grande parte da última década a definir o pelotão moderno.