A divisão ProTeam recebe este ano a nova Modern Adventure Pro Cycling, a mais recente equipa norte-americana, que ambiciona correr a Volta a França na próxima década. É liderada por George Hincapie, mas outro ex-profissional, Bobby Julich, terá um papel importante a orientar os ciclistas norte-americanos e não só durante o período de adaptação.
“Dar um passo atrás fez bem, mas nunca deixei de acompanhar todas as corridas que pude”, disse Julich ao
Cyclism'Actu. “Quando surgiu a oportunidade com o George e o Richard Hincapie, dois dos meus amigos mais antigos no pelotão, de criar uma nova equipa e reabrir o caminho para a Europa aos ciclistas americanos, interessei-me de imediato. Quando o George e eu nos tornámos profissionais, a estrada para a Europa parecia uma autoestrada de quatro faixas. Nos últimos dez anos, encolheu bastante. O nosso objetivo é alargá-la novamente e dar aos jovens as oportunidades que a nossa geração teve. É um verdadeiro regresso às raízes”.
Julich tem no passado resultados no topo do ciclismo mundial e isso será chave para orientar a equipa. “Sou o performance manager”, confirmou. O norte-americano, de 54 anos, soma triunfos no Paris-Nice e no Renewi Tour no seu palmarés e pódios na Volta a França, bem como nos Jogos Olímpicos e no Campeonato do Mundo na disciplina de contrarrelógio. Agora, após vários anos afastado do pelotão a um nível relevante, regressa para assumir o novo cargo nesta equipa recém-criada.
“O George, o Richard (os irmãos Hincapie) e eu procuramos tomar as melhores decisões possíveis. Recrutámos pessoas notáveis e corredores interessantes, alguns talvez um pouco inexperientes, mas motivados e prontos a dar 100%. Temos um compromisso de patrocínio de pelo menos seis anos, o que nos permite crescer de forma orgânica, sem a pressão imediata dos resultados”.
A equipa apresenta jovens promessas entusiasmantes como Leo Hayter e Cole Kessler, ou o ex-Israel - Premier Tech Riley Pickrell, que deverão ser alguns dos cabeças de cartaz e já representam esperança para o futuro; enquanto o presente começa a ser recompensado,
com o primeiro wildcard World Tour, para a Volta à Catalunha.
Bobby Julich no Campeonato do Mundo de 2005
“Estamos a começar do zero: sem dono omnipresente, sem pressão indevida dos patrocinadores, sem regras herdadas de décadas passadas. Cabe aos ciclistas e ao staff escrever a história da equipa. O meu principal desejo é que a equipa gere entusiasmo, sobretudo para o ciclismo norte-americano, que projete uma imagem saudável e profissional, e que os corredores se divirtam”, acrescenta.
Julich traça um objetivo de longo prazo: levar a equipa ao topo nos próximos anos. “A performance virá com o tempo. O objetivo final é claro: estar na partida da Volta a França dentro de cinco a seis anos”.
“A nossa prioridade é criar entusiasmo, tanto para os nossos corredores como para novos adeptos, especialmente nos Estados Unidos. A nossa equipa é 50–60% americana, mas inclui também jovens talentos internacionais que nos ajudarão a cumprir metas. Sabemos que este projeto é uma maratona, não um sprint. Estaremos menos apetrechados, menos experientes, mas prontos para aprender e evoluir”.
Calendário mais reduzido dificulta a vida aos norte-americanos
Este poderá ser um projeto determinante para o ciclismo nos Estados Unidos, muito fustigado na última década, com a perda de corridas e equipas ao mais alto nível.
“Quando eu era jovem, havia corridas todos os fins de semana nos Estados Unidos. O calendário era cheio e de qualidade. Hoje, está praticamente vazio. Sem corridas, é difícil inspirar novos talentos”, argumenta. “Alguns americanos já brilham no World Tour, mas tiveram de percorrer um caminho extremamente difícil. E o que dizer do nível imediatamente abaixo da elite? Esses corredores são muitas vezes esquecidos. Vir para a Europa por conta própria é muito complicado”. O mesmo se aplica à Austrália, mas o projeto da Team Jayco AlUla ajuda imenso; nos EUA existe a EF Education-EasyPost, porém com apenas quatro ciclistas norte-americanos com contrato este ano.
“A menos que se seja excecionalmente talentoso, é muito difícil deixar o país, a família, o ambiente. Se conseguirmos apoiar estes jovens e dar-lhes oportunidades, tudo se torna possível. O Matteo [Jorgenson] não era o melhor nos juniores ou sub-23, mas trabalhou muito e acreditou. Hoje, é um dos melhores corredores do mundo”, apontou Julich.
“Se desenvolvermos ciclistas e as grandes equipas se interessarem por eles, teremos por vezes de deixá-los partir por razões orçamentais. Mas ver mais americanos na Volta a França e nas maiores corridas já é, por si só, um sucesso”.