Joaquim “Purito” Rodríguez sempre foi conhecido por dizer o que pensa. Sem rodeios, sem diplomacia desnecessária e com uma honestidade rara no pelotão profissional. Numa recente entrevista contou como recusou uma proposta da Team Sky na década de 2010, em pleno auge da carreira.
Durante anos, circularam rumores que ligavam
Joaquim Rodríguez à Team Sky, a equipa mais poderosa do pelotão na altura – hoje
INEOS Grenadiers. A transferência nunca se concretizou. Não por falta de interesse ou de propostas, mas por uma razão mais pessoal.
Purito é claro: “A Sky era uma equipa muito estruturada, muito matemática, e não me via lá. Não era uma questão de dinheiro ou resultados, era uma questão de sensações.” Para o catalão, a compatibilidade humana e o método de trabalho pesavam tanto como o potencial desportivo.
Nas suas palavras: “Sempre fui um ciclista muito instintivo, corria por sensações, e na Sky estava tudo demasiado controlado.” Essa filosofia, assente em dados, potenciómetros e estratégias meticulosas, chocava com a sua forma de ler as corridas. Rodríguez queria liberdade para atacar e não era o tipo de trepador que tirava proveito de ritmos constantes nas subidas.
Sabia também que teria de partilhar a liderança com outros corredores, incluindo Chris Froome, cenário pouco ideal para o espanhol que terminou no pódio das três Grandes Voltas. “Sabia que lá não seria o líder absoluto. E nessa fase da minha carreira, precisava de me sentir importante, de sentir que a equipa confiava plenamente em mim.” Não era ego, mas responsabilidade e motivação.
Rodríguez deixa claro que não há ressentimentos: “A Sky fazia as coisas muito bem, por isso ganhou tanto, mas nem todos os ciclistas encaixam em todas as equipas.” Uma reflexão que resume a sua escolha. Preferiu ficar onde se sentia confortável, ouvido e respeitado, em vez de se forçar numa estrutura que não era a sua.
Joaquim Rodriguez falou sobre porque é que recusou uma proposta da Team Sky, atualmente INEOS Grenadiers
Os Mundiais de Florença e um capacete com história
Se recusar a Sky foi uma decisão racional, perder o capacete de Florença tocou uma fibra emocional. Os
Campeonato do Mundo de 2013 são um dos momentos mais icónicos e dolorosos da carreira de Purito Rodríguez.
Recorda esse capacete como um objeto carregado de significado: “Aquele capacete era especial. Não era um capacete qualquer, era do dia em que estive mais perto de ser campeão do mundo.” Em Florença, Rodríguez roçou o arco-íris, falhando o título após uma corrida duríssima e um final que ainda gera debate.
O desaparecimento foi quase acidental, mas o impacto emocional foi real. “Perdi-o sem dar por isso. Entre viagens, mudanças de casa e trocar de material, um dia percebi que tinha desaparecido”, diz. Sem roubo, sem mistério, apenas um descuido que o tempo traz.
Para ele, a perda vai além do objeto: “Fiquei mesmo zangado, porque aquele capacete representava um momento único na minha carreira. Era um lembrete físico de algo enorme.” Num desporto em que as vitórias se medem em segundos, os objetos tornam-se âncoras de memória.
Purito admite que nunca foi apegado a troféus ou memorabilia, mas aquele capacete era diferente: “Não sou de guardar muitas coisas, mas teria guardado aquele capacete para sempre.” Simbolizava sacrifício, esperança e uma espinha cravada que ficou.
A recusa em assinar pela Sky e a tristeza pelo capacete perdido de Florença partilham o mesmo fio condutor: fidelidade a si próprio. Purito Rodríguez nunca quis trair quem era, nem nas escolhas profissionais nem na forma como valoriza a sua história.
“Prefiro a tranquilidade de ter feito o que senti em cada momento”, diz. Essa filosofia explica o caminho que escolheu e por que certas memórias, como aquele capacete, pesam mais do que muitas vitórias.
“Purito” Rodríguez e um palmarés notável
Purito Rodríguez construiu uma carreira de relevo, com vitórias em clássicas, corridas por etapas e etapas de Grandes Voltas. Os maiores triunfos incluem dois Il Lombardia em 2012 e 2013, a La Flèche Wallonne em 2012 e a geral da Volta ao País Basco em 2015. Somou ainda corridas por etapas como a Volta à Catalunha em 2010 e 2014, a Setmana Catalana em 2004, a Vuelta a Burgos em 2011 e a Escalada a Montjuïc em 2001.
No que toca a etapas, Purito venceu nove na Volta a Espanha entre 2003 e 2015, três na Volta a França em 2010 e 2015, duas na Volta a Itália em 2012 – tendo terminado no pódio das três –, seis na Volta ao País Basco entre 2010 e 2015 e quatro no Tirreno–Adriático entre 2008 e 2013. O seu registo mostra versatilidade em clássicas e Grandes Voltas, consolidando-o como um dos principais corredores espanhóis da sua geração.
| Época | Equipa | Categoria |
| 2016 | Team Katusha | WT |
| 2015 | Team Katusha | WT |
| 2014 | Team Katusha | WT |
| 2013 | Team Katusha | WT |
| 2012 | Team Katusha | WT |
| 2011 | Team Katusha | WT |
| 2010 | Team Katusha | WT |
| 2009 | Caisse d’Epargne | PT |
| 2008 | Caisse d’Epargne | PT |
| 2007 | Caisse d’Epargne | PT |
| 2006 | Caisse d’Epargne – Illes Balears | PT |
| 2005 | Saunier Duval – Prodir | PT |
| 2004 | Saunier Duval – Prodir | TT1 |
| 2003 | O.N.C.E. – Eroski | TT1 |
| 2002 | O.N.C.E. – Eroski | TT1 |
| 2001 | O.N.C.E. – Eroski | TT1 |
| 2000 | O.N.C.E. – Deutsche Bank | TT1 (estagiário desde 01/09) |