Romina Hinojosa sabe exatamente como tem sido apresentada desde a
Volta a Itália de 2025. Não pelos resultados, nem pela equipa, nem sequer pela nacionalidade. Pelo maglia rosa que o namorado,
Isaac Del Toro,
vestiu durante uma parte dessa corrida.
A atenção foi real, e ela não finge o contrário. Mas agora interessa o que vem a seguir, porque Del Toro não venceu essa
Volta a Itália e ela não planeia passar outra época a viver dentro da manchete de outra pessoa.
Hinojosa tem 23 anos, corre pela Lotto-Intermarché Feminina e quer ser algo muito mais útil para a equipa do que um rótulo passageiro.
Uma ciclista por mérito próprio
Em declarações à Sporza, Hinojosa descreveu a experiência na
Volta a Itália como algo que não trocaria por nada. “Porque não perderia aquele momento por nada deste mundo. Foi uma experiência inacreditável”, afirmou.
Isaac del Toro foi a revelação do Giro 2025
De regresso a casa, a realidade impôs-se rapidamente. Não vai construir uma carreira a partir de uma semana de proximidade. Vai construí-la a partir de uma ideia clara do tipo de ciclista que quer ser e da disponibilidade para desafiar as expectativas à sua volta. “No ano passado a equipa achava que eu era uma cabra da montanha. Mas eu sabia que não era uma trepadora pura, apesar de subir bem”, assinalou. A resposta da Lotto não foi discutir, foi testá-la onde a verdade se revela depressa: o empedrado.
Hinojosa diz que a mudança surpreendeu internamente. “A equipa ficou surpreendida por eu me aguentar tão bem no caos das corridas flamengas. Por isso decidiram colocar-me em mais clássicas de empedrado”, referiu.
O seu plano de época reflete essa viragem. “Começo a temporada na Omloop, seguida das outras corridas de empedrado, as clássicas das Ardenas e a Vuelta”, informou. Lê-se como a agenda de quem quer expandir limites, não protegê-los.
A carta de brincadeira que mudou tudo
A relação no centro desta história não começou com gestos grandiosos. Começou num hotel, numa convivência mexicana, e numa corrida importante para ambos. “Aconteceu tudo no Tour de l’Avenir de 2023. O Isaac venceu essa corrida e eu corri a edição feminina”, contou Hinojosa.
Ao início não passou de olhares. Depois as amigas intervieram e ela tentou devolver a provocação. “Em resposta escrevi uma carta de amor, a brincar”.
O plano era simples. Não era para lhe chegar às mãos. Chegou na mesma. “Não era intenção que o Isaac pusesse as mãos nessa carta. Mas através de uma amiga acabou por acontecer”, explicou.
Hinojosa descreve o que se seguiu como uma longa conversa que começou no ciclismo e não no romance. “Pedi conselhos ao Isaac sobre o meu futuro no ciclismo. Seguindo o conselho dele, aceitei a proposta da Lotto”, afirmou.
Esse detalhe importa porque mantém o equilíbrio certo. Del Toro faz parte da sua história, mas não é a história toda. Ela toma decisões, arrisca e quer crescer.
Finestre e o que aprendeu com a derrota
Há um momento da
Volta a Itália de que não consegue fugir, porque moldou a forma como viu Del Toro e como pensa sobre contratempos em geral.
Viu-o perder a maglia rosa no Finestre para o Simon Yates. Conhece bem essa subida. “Já tinha subido o Finestre uma vez, quando estive na fuga do Tour de l’Avenir”, recordou, acrescentando: “Foi também por essa prestação que a Lotto me ofereceu contrato há dois anos”.
Esperava silêncio a seguir. “Pensei que o Isaac, depois de perder o Giro, não iria querer falar durante horas. Era assim que sempre reagia no passado quando as coisas não corriam como queria”, explicou.
O que recebeu foi diferente. “Mas depois dessa etapa do Giro o Isaac comportou-se com muita maturidade e soube relativizar. Isso surpreendeu-me muito”, expressou. “Ele percebe que ainda é jovem e que tem muitos anos bonitos pela frente”.
É uma lente útil também para ela. O rótulo que a seguiu na primavera passada pode abrir portas, mas não a levará pela Omloop, nem sobre o empedrado, nem para as Ardenas. Só o que faz na estrada conseguirá isso. O sonho a longo prazo de Hinojosa é ambicioso e simétrico. “O meu sonho máximo? Andarmos os dois com a camisola arco-íris. Seria fantástico”, antecipou.
Por agora, persegue algo mais imediato. Não uma alcunha, nem uma narrativa, nem um foco emprestado. Apenas o seu nome, nas suas corridas, nos seus termos.