Dificilmente encontrará uma carreira mais “montanha-russa” no ciclocrosse do que a do campeão britânico
Cameron Mason. Aos 25 anos, tem estado há vários anos à porta da elite da disciplina. Mas sempre que parece prestes a dar o salto, regressa à mediania com um resultado
como o 21.º lugar no recente Campeonato do Mundo, um contraste vincado com o
top-5 no Campeonato da Europa no arranque deste inverno.
O próprio Mason está dolorosamente consciente destas inconsistências e recorreu às redes sociais para explicar porque é tão difícil estar no topo quase em todas as corridas da época, incluindo as mais importantes.
“Tendo a render por acidente, como subproduto de procurar outra coisa, perseguir uma sensação diferente ou seguir outro caminho. Um resultado no papel, na maioria das vezes, não me diz muito”, começa Mason na longa publicação no
Instagram. “Mas é isso que conta no desporto profissional. Por isso, quando chega uma corrida grande e tradicional, como o Mundial, e o objetivo principal é render, custa-me fazer o que é necessário”.
Prossegue: “Acho que é porque gasto tanta energia a tentar ligar o ‘interruptor’ que me esqueço de que, na verdade, preciso é de estar desligado para tirar o melhor de mim. Correr sem suposições, expectativas e limites. Como faço quando dou um passeio médio de bicicleta por Mid Lothian em junho. Para mim, os diamantes não se fazem sob pressão, encontram-se na erva alta, fora do trilho batido”.
Isto não é um trabalho de escritório
Cameron Mason voou no início desta época
Mason parece, de facto, preferir “ficar na sua zona” antes das corridas, mas há momentos em que não se pode “desvalorizar” a importância do evento que aí vem. E quando esse verme lhe entra na cabeça, o rendimento tende a desmoronar. Foi o que aconteceu no domingo passado, em Hulst.
“Num trabalho normal eu, claro, não estaria a escrever online para milhares de pessoas sobre um mau dia no escritório. Mas num trabalho normal também não teria esses maus dias à frente de milhares de pessoas a ver. É por isso que sinto que é apropriado escrever assim em público”.
Obviamente, Mason preferia estar sempre em forma perfeita, mas admite que só através dos baixos se conseguem saborear verdadeiramente os altos. “É difícil dizer o que é já um ‘dia não’. Mas, para saber o que é um dia não, é preciso saber o que é um ‘dia sim’. Eu sei bem como se sentem esses dias. É por isso que a minha situação atual é ainda mais difícil”.
E, como qualquer atleta, Mason trabalha duro para atingir o melhor nível. Ainda assim, por vezes nem as melhores pernas fazem milagres se a cabeça não estiver totalmente no jogo.
“Sei treinar, recuperar, sofrer, correr, comer, dormir, etc., e sei como render. Mas não sei como fazer isto o tempo todo, em todas as corridas, em todos os dias grandes. Embora saiba muito sobre o que me faz render, é na pequena parte do desconhecido que passei semanas a investigar, analisar e preocupar-me”.
“Apesar do puzzle de que falo acima, não trocaria ser medíocre por estes momentos de magia. Sou privilegiado por sentir estes altos tanto quanto sou privilegiado por sentir estes baixos. Tenho é memória curta, como toda a gente, por isso é fácil esquecer o bom e o mau enquanto sigo em frente”.