"Não foi um milhão, foram só 500 mil" - Quintanilha denunciou em tribunal chantagem de Nuno Ribeiro ao Porto

Ciclismo
sábado, 25 abril 2026 a 10:28
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Meses depois de o julgamento de primeira instância ter exposto em detalhe um dos maiores escândalos do ciclismo português, continuam a emergir passagens marcantes do processo Operação Prova Limpa.
A investigação, amplamente acompanhada pela CNN Portugal, revelou não apenas o alegado esquema de doping na estrutura da W52 - FC Porto, mas também um episódio de presumida chantagem que surpreendeu a sala de audiências.

Chamado a reunião de urgência com Pinto da Costa

No Tribunal de Penafiel, Adriano Quintanilha descreveu o momento em que, segundo o próprio, foi convocado de urgência para uma reunião no Estádio do Dragão por Jorge Nuno Pinto da Costa.
“Sr. dr. juiz, eu estava a chegar de uma viagem de Itália e sou chamado ao gabinete do nosso presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa. Chamou-me ao gabinete dele e disse-me: ‘Sr. Quintanilha, o que é que se está a passar?’”
Quintanilha explicou que, sem perceber o motivo da reunião, perguntou de imediato o que se passava. A resposta, garantiu, deixou-o incrédulo.
“Chegou-me aqui uma novidade, que eu até penso que isto é para os apanhados”, recordou, dizendo que Pinto da Costa lhe terá acrescentado: “Chegou-me aqui um pedido de um milhão de euros”.
Segundo o depoimento, a reação foi imediata. “Ó presidente, isso não pode ser, isso é impossível. Isso não é verdade.”
Mas, de acordo com Quintanilha, Pinto da Costa insistiu: “É verdade. Chegou-me pelos meus advogados aqui um pedido.”
Foi então que decidiu, nas suas palavras, “tirar isso a limpo”.

O momento em que o juiz interrompeu

Durante o testemunho, o juiz Miguel Paredes procurou clarificar quem estaria por trás dessa exigência milionária.
“Mas quem é que foi pedir um milhão de euros? É isso que eu não estou a perceber.”
Quintanilha respondeu sem hesitar: “Foram pedir um milhão de euros ao Porto.”
O magistrado voltou a insistir: “Quem, quem?”
E recebeu a resposta direta: “O Sr. Nuno Ribeiro.”
Nuno Ribeiro era uma das figuras centrais do processo e antigo diretor desportivo da equipa.

O encontro no armazém

Quintanilha contou ainda que decidiu confrontar Nuno Ribeiro pessoalmente. Segundo relatou, o encontro aconteceu em março de 2024, pouco antes das eleições presidenciais do FC Porto, nas quais Pinto da Costa acabaria derrotado por André Villas-Boas.
“Chega ao meu armazém e eu fui mais o meu filho, António Jorge, e o Sr. David.”
Quando o encontrou, lançou-lhe a pergunta diretamente: “Nuno, o que é que se passa? Tu foste ao Porto pedir isto?”
Segundo Quintanilha, a resposta foi reveladora. “Não foi um milhão, foram 500 mil, foi só…”
O empresário disse então ter exigido explicações:
“Mas o que é que se passa aqui? Explica-me. Porque é que estás a pedir isso? É por causa das eleições? O que é que o Porto tem a ver com este caso?”
A resposta atribuída a Nuno Ribeiro apontava para o processo judicial e para os depoimentos prestados perante a Autoridade Antidopagem de Portugal.
“Ah, os ciclistas foram para a ADoP dizer tudo, botar tudo para cima de mim, eu não posso ficar com estas coisas…”
Quintanilha afirmou ter reagido em tom duro: “Quem tem de pagar por isto tudo és tu e os ciclistas, se houver alguma coisa a pagar. És tu e os ciclistas.”
Segundo disse ao tribunal, a conversa terminou aí. “Falei mais alto um bocadinho e ele veio-se embora, fugiu. E a partir daí não tive mais conversa com o Sr. Nuno Ribeiro.”

Como nasceu a Operação Prova Limpa

A investigação judicial começou após uma denúncia enviada em fevereiro de 2020 ao inspetor-chefe Luís Ribeiro, então ligado ao conselho consultivo da Autoridade Antidopagem de Portugal.
A W52 dominava então o ciclismo nacional, com sucessivos triunfos na Volta a Portugal. O alegado esquema foi desmontado através de vigilâncias prolongadas e milhares de horas de escutas telefónicas.
No acórdão de primeira instância ficou assente que, “pelo menos desde o ano de 2020”, dirigentes ligados à estrutura teriam procurado aumentar artificialmente o rendimento competitivo dos ciclistas para obter melhores resultados desportivos.

Os códigos usados ao telefone

Uma das partes mais impressionantes do processo passou pela linguagem codificada utilizada, segundo o tribunal, para esconder referências a substâncias proibidas.
Entre os termos identificados surgiam:
  • “Branca”, “Dipro”, “Profes”, “Riscos” ou “Corticoides”, associados à Betametasona
  • “Força”, “F” ou “FR”, associados à hormona de crescimento
  • “Feminina”, “Femenina” ou “Meno”, associados à Menotropina
  • “TB”, para TB-500
  • “Insu”, para insulina de ação rápida
O acórdão refere ainda que aplicações como WhatsApp e Telegram eram usadas para dificultar o rastreio das comunicações.

A defesa contestou a gravidade social do caso

No recurso para a Relação do Porto, a defesa de Adriano Quintanilha contestou a forma como o tribunal avaliou o impacto público do processo.
Os advogados sustentaram que a decisão exagerava os efeitos sociais das práticas dopantes e argumentaram que uma intensa cobertura mediática não equivale automaticamente a alarme social.
Foram mais longe: admitindo que o doping prejudica a justiça competitiva, defenderam que o tribunal nunca provou que atletas de outras equipas estivessem limpos, colocando em causa a avaliação da igualdade competitiva.

Um caso que continua a marcar o ciclismo português

Anos depois do início da investigação e meses após o julgamento, o processo continua a ser uma referência inevitável quando se fala de credibilidade no ciclismo nacional. Entre escutas, códigos secretos, substâncias proibidas e alegações de chantagem envolvendo centenas de milhares de euros, a Operação Prova Limpa deixou marcas profundas no desporto português.
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